Nutrição - 23.07.2018

Leveduras autolisadas melhoram nutrição de bovinos leiteiros

Uso de leveduras como promotores da digestão no rúmen em substituição a promotores químicos de desempenho converge à tendência do mercado consumidor quanto à utilização de produtos naturais

- Divulgação/Leandro Cecato de Oliveira

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Artigo escrito por Leandro Cecato de Oliveira, médico veterinário, especialista em Produção de Ruminantes e gerente técnico de Ruminantes da Tectron

O fornecimento de dietas eficientes e rentáveis para vacas leiteiras chama a atenção quanto aos altos teores de carboidratos presentes. A manipulação da microbiota ruminal torna-se um desafio para o nutricionista, visto que o ambiente do rúmen nestes casos fica agressivo principalmente para as bactérias que degradam a fibra dietética, visando um melhor controle do ambiente ruminal, as leveduras apresentam-se como uma boa estratégia para a nutrição de bovinos leiteiros e de corte. O uso de leveduras como promotores da digestão no rúmen em substituição a promotores químicos de desempenho converge à tendência do mercado consumidor quanto à utilização de produtos naturais, além de ser um aditivo reconhecidamente seguro.

Os produtos comerciais que contêm leveduras são compostos comumente por leveduras vivas ou misturas em distintas proporções de leveduras vivas e mortas, na presença ou não do meio de cultivo. Uma categoria mais recente de produtos é a levedura autolisada, composta por células mortas que são geralmente oriundas das indústrias de cana-de-açúcar, cervejaria e panificação. A autólise induzida industrialmente se dá por meio de processos químicos, físicos ou enzimáticos. Ela disponibiliza componentes da levedura capazes de estimular a fermentação ruminal, como peptídeos, aminoácidos, enzimas, vitaminas, minerais e ácidos orgânicos, além dos componentes da parede celular como os mananoligossacarídeos (MOS) e beta-glucanos. As leveduras autolisadas ainda combinam características nutricionais favoráveis, como teor proteico entre 30 e 70%, sendo ricas em vitaminas do complexo B (B1, B2, B6, ácido pantotênico, niacina, ácido fólico e biotina) e em minerais essenciais ao organismo animal, por exemplo, o selênio.

Benefícios para o rúmen

Os efeitos comuns à utilização de leveduras autolisadas em vacas leiteiras ocorrem, principalmente, devido às alterações na população microbiana ruminal. Com essas mudanças, proporciona-se o crescimento de microrganismos celulolíticos, favorecendo também as bactérias consumidoras de lactato (principal causador da acidose ruminal), mantendo o pH mais estável. Por consequência, ocorre o aumento no consumo de alimentos e na sua digestibilidade, na produção dos ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) no rúmen e na produção de leite.

A quantidade de nitrogênio amoniacal presente no rúmen é decorrente da degradação de proteínas e da reciclagem de ureia via saliva ou epitélio ruminal. O excedente de amônia é absorvido pelo epitélio ruminal e levado ao fígado para ser metabolizado à ureia e excretado. As bactérias fibrolíticas usam a amônia como fonte principal de nitrogênio para síntese de proteínas. Com o aumento dessa população, o efeito de redução da concentração de amônia no rúmen é esperado, melhorando a eficiência de utilização do nitrogênio.

O uso de leveduras autolisadas altera o perfil de AGCC produzidos no rúmen, aumentando a produção do propionato, reduzindo a relação acetato:propionato e, consequentemente, aumentando o potencial glicogênico da dieta. As leveduras também são fontes de malato, um ácido orgânico que aumenta o sequestro de hidrogênio (H2) livre no rúmen. O H2 produzido durante a fermentação de carboidratos à acetato e butirato pode ser utilizado para converter o malato em propionato. A formação de propionato a partir do malato reduz a disponibilidade de H2 para síntese de metano.

Outro efeito relacionado aos AGCC é a redução de lactato ruminal. Testes realizados in vitro indicam que a utilização de leveduras favorece as bactérias que metabolizam o lactato. A utilização de leveduras autolisadas pode, ainda, estimular o aumento da população de alguns protozoários no rúmen, como Isotricha e Dasytricha. Estes consomem oxigênio presente no rúmen proporcionando um ambiente mais favorável à fermentação.

Benefícios à imunidade

Entre os carboidratos encontrados nas leveduras podem ser destacados os beta-glucanos e MOS, presentes na parede celular. Estes carboidratos geram resposta do sistema imunológico inato e corroboram para a secreção de citocinas. Os MOS atuam como sítio de alta afinidade para ligação de bactérias Gram-negativas, removendo agentes patogênicos antes de sua colonização no intestino. Os beta-glucanos têm demonstrado efeitos imunomoduladores, quando suplementados para ruminantes jovens. Há relatos de que a suplementação com levedura reduz casos de hipertermia em bezerros durante o desmame, e a utilização de MOS na dieta de vacas secas aumenta a resposta imune humoral ao rotavírus.

Estudos demonstram que a suplementação de leveduras autolisadas melhora a função dos neutrófilos em bezerras, quando inoculadas com Escherichia coli. Adicionalmente, observa-se melhora do escore fecal, com redução da diarreia e mortalidade.

Para vacas em período de transição, a utilização de leveduras autolisadas consiste em um suporte para a adaptação fisiológica pós-parto, com o aumento de produção de leite e menor contagem de células somáticas.

Produção de leite, consumo de matéria seca e estresse térmico

O incremento da produção de leite se deve às mudanças que ocorrem no ambiente ruminal. Com o aumento da digestibilidade da fibra no rúmen ocorre aumento na digestão de matéria orgânica em todo trato digestivo, otimização da produção e proporção dos AGCC no rúmen, levando à maior produção de leite. Em uma metanálise realizada com 36 publicações observou-se um aumento na produção de leite de 1,18 kg/dia durante toda a lactação com o uso de levedura.

Quando fornecemos leveduras autolisadas para vacas em início de lactação, observamos que o consumo de matéria seca (CMS) aumenta. Isso se deve ao aumento da população de bactérias fibrolíticas que degradarão em maior velocidade e quantidade a fibra da dieta e, consequentemente, a matéria orgânica em todo o trato digestivo. Com isso literalmente “liberamos espaço” para que as vacas consigam comer mais. Na mesma metanálise citada anteriormente, observou-se um aumento de 0,62 kg no CMS de vacas com até 70 dias em lactação.

As leveduras autolisadas estimulam a atividade microbiana do rúmen para um melhor aproveitamento dos alimentos. Desta forma, à medida que o apetite das vacas diminui em dias quentes, conseguimos melhorar a digestibilidade e otimizar a disponibilidade dos nutrientes para a produção de leite, sistema imune e reprodução. Em trabalhos publicados, os autores relatam um incremento médio de 1,42 kg de leite para vacas suplementadas com leveduras durante o estresse térmico.

Considerações finais

O uso de leveduras autolisadas demonstra consistência por não possuírem células vivas, apenas metabólitos de fermentação, não sendo suscetíveis a degradações decorrentes da ação da temperatura ambiente, transporte, armazenamento e condições de temperatura e pH ruminais. A mescla de leveduras autolisadas oriundas da indústria de cana-de-açúcar, cervejaria e panificação soma benefícios específicos de cada uma, com um ganho e sinergia superiores à utilização delas separadamente, proporcionando ganhos em digestibilidade, imunidade e produção de leite. Adicionalmente, é um aditivo que contribui para a redução das emissões de metano oriundas do mal aproveitamento energético no rúmen.

Mais informações você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de junho/julho de 2018 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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