Entrevista Exclusiva - 19.05.2017

Influenza poderia transformar Brasil em importador de frango, alerta pesquisador mexicano

Em entrevista exclusiva para O Presente Rural, ele fala sobre a perspectiva atual, prevenção e controle da Influenza Aviária

- Ilustração/Arquivo/OP Rural

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Veio ao Brasil o médico veterinário mexicano A. Gregorio Rosales, para palestrar à um seleto público durante o Simpósio Brasil Sul de Avicultura (SBSA) 2017, que aconteceu de 04 a 06 de abril, em Chapecó, SC. Mestrado e doutorado pela Universidade da Georgia (EUA), Rosales construiu uma sólida carreira profissional nos Estados Unidos e em outros países, trabalhando em empresas de renome, como Aviagen, além de atuar como consultor privado em saúde e biossegurança das aves. Rosales exerceu funções como docente e pesquisador em importantes universidades, como o Poultry Diagnostic and Research Center, na Universidade da Georgia.

O estudioso é diplomata do American College of Poultry Veterinarians, autor ou coautor de numerosas publicações sobre biossegurança, prevenção e controle de doenças aviárias. Em 2012, recebeu o Prêmio de Atendimento Especial da Associação Americana de Patologistas Avícolas e, em 2015, o Prêmio Lamplighter, da Associação de Avicultura e Ovos dos Estados Unidos, por seu contínuo serviço e dedicação à profissão e à indústria avícola.

Em entrevista exclusiva para O Presente Rural, ele fala sobre a perspectiva atual, prevenção e controle da Influenza Aviária, doença amplamente difundida pelo mundo, mas ainda distante do Brasil. Ele alerta que um foco da doença poderia transformar o Brasil de exportador a importador de carne de frango.

O Presente Rural (OP Rural) - Qual o prognóstico mais recente da Influenza Aviária no mundo?

A. Gregorio Rosales (AGR) - A Influenza Aviária tornou-se uma das mais constantes e significantes ameaças à indústria avícola no mundo. Como resultado de centenas de surtos recentes da doença na União Europeia, América do Norte e nos continentes Asiático e Africano, o lucro da indústria tem sido severamente impactado e em diversos casos, com efeito de longo prazo. Infelizmente, a doença também se tornou endêmica em algumas áreas do planeta.

OP Rural - Quais as principais medidas a serem tomadas para evitar a entrada da IA no Brasil?

AGR - Os produtores, junto aos oficiais de saúde animal, necessitam desenvolver um plano compreensível baseado em potenciais fontes e nível de risco apropriado. De forma a continuar o trabalho na implementação de práticas de biosseguridade, conduzir a vigilância passiva e ativa e educar e/ou treinar, regularmente, pessoal de todos os níveis do sistema de produção. Cooperação e coordenação entre a indústria e agências regulatórias precisam ser atingidas de forma a enfrentar possíveis situações de emergência.

OP Rural - Quais seriam os impactos para a avicultura brasileira com a entrada da IA?

AGR - Em adição à potenciais perdas e redução dos lucros associadas aos sintomas clínicos, essa doença pode causar interrupções graves do comércio nacional e internacional de produtos aviários. A presença da Influenza Aviária em um país pode também resultar em limitação dos produtos disponíveis, a necessidade de importar produtos para atender a demanda do consumidor e em alguns casos poderia gerar preocupação em relação à segurança dos produtos oriundos de aves.

OP Rural - Quais são os sintomas da doença?

AGR - Dependendo da patogenicidade da cepa de Influenza Aviária, os sintomas podem variar de sinais respiratórios brandos à graves, queda na produção de ovos, depressão e mortalidade com inchaço e lesões hemorrágicas em diversos órgãos.

OP Rural - Quais são as medidas de controle, do diagnóstico à eliminação do lote e desinfecção das instalações, que precisam ser tomadas caso haja um foco?

AGR - Uma vez que o diagnóstico é feito é importante eliminar o plantel confirmado positivo o quanto antes para reduzir os riscos da transmissão a outras granjas. A disposição apropriada das aves mortas, ovos e da cama através de métodos adequados é crucial para prevenir possíveis disseminações. Uma vez que o diagnóstico é realizado, se faz necessário estabelecer as zonas de controle e vigilância preconizadas pela OIE (Organização Mundial de Saúde Animal). Controle estrito do movimento de pessoas, equipamento e veículos é essencial para minimizar o risco de transmissão por fômites. A limpeza e desinfecção de instalações precisa ser realizada utilizando produtos e procedimentos aprovados. Apenas quando testes demonstrando ausência de vírus residual, e após o tempo de vazio sanitário estiverem completos, as granjas estarão autorizadas para reestabelecer seus plantéis.

OP Rural - Qual o papel dos laboratórios oficiais e privados (das agroindústrias) na monitoria da IA?

AGR - É preciso reconhecer que um programa de bioseguridade robusto (primeira linha de defesa) necessita ser apoiado por um programa de vigilância (testes laboratoriais) sólido, o qual pode prontamente identificar um plantel infectado e conduzir a submissão de amostras adicionais de forma a confirmar o diagnóstico rapidamente. O diagnóstico pode então ser seguido de quarentena imediata e de outras ações de contenção.

A condução de processos de triagem regular (em momentos apropriados) pode ajudar a indústria a garantir o status sanitário dos plantéis, sua progênie e outros produtos como livres de Influenza Aviária. A certificação oficial de plantéis e produtos como livres de Influenza Aviária é importante para permitir e facilitar o mercado interno e externo.

O teste deveria ser conduzido também quando qualquer lote apresenta sinais respiratórios (mesmo brandos), particularmente quando estes ocorrem em conjunto com o aumento da mortalidade e queda da produção de ovos.

Experiências ao redor do mundo mostram que casos de Influenza Aviária de baixa patogenicidade (LPAI) causados por cepas H5 ou H7 podem não ter sido detectados de forma apropriada. Consequentemente, essas infecções provavelmente se espalharam e evoluíram (enquanto o vírus se adaptava ao hospedeiro e mutava) para casos de alta patogenicidade (HPAI).

OP Rural - Após detectado um foco de IA, quanto tempo é considerado ideal para que todas as providências de sacrifício do lote e demais medidas para minimizar a possibilidade de disseminação da doença?

AGR – O ideal é que a eliminação em massa através de métodos aprovados precisam ser conduzidas dentro das 24 horas após o diagnóstico. Obviamente, quanto mais rápido ocorrer a eliminação de um plantel confirmado positivo, maiores são as chances de reduzir o risco de mais vírus serem gerados, se disseminando por outras aves vivas.

OP Rural - Os laboratórios do Brasil suprem a necessidade de diagnóstico rápido?

AGR - Não há dúvida que existem recursos humanos, tecnológicos e de diagnóstico. Portanto, não vejo razão do porque não seria possível através de um esforço coordenado e cooperativo entre oficiais de saúde e a laboratórios da indústria (de origem privada), seguindo específicos e padronizados protocolos de monitoramento. A meta deve ser a manutenção de um programa e recursos disponíveis para, primeiramente, detectar e então confirmar prontamente a infeccção.

OP Rural - Quais as ferramentas de monitoria mais indicadas para conferir agilidade na questão de vigilância da IA?

AGR - Processos de triagem como a detecção de anticorpos (Elisa, testes AGP) e a captura de antígeno (vírus do tipo A) podem ser usados de forma individual ou combinados para realizar a detecção inicial. O pessoal treinado necessita realizar estes testes usando reagentes de qualidade e eficiência comprovada e seus protocolos pré-estabelecidos.

Uma vez feita a detecção de aticorpos/antígeno, amostras de soro, swab traqueal e cloacal precisam ser submetidos aos laboratórios oficiais para a confirmação. Laboratórios especializados podem também realizar o isolamento do vírus e a subtipagem molecular.

A detecção de anticorpos como principal procedimento de triagem utilizando kits de qualidade comprovada é, de longe, o método mais utilizado hoje, sendo capaz de detectar lotes que foram expostos ao vírus mesmo na ausência de sinais clínicos. Este é um fato importante, o qual pode ajudar na detecção de casos causados por cepas LPAI e mesmo depois do vírus não estar mais presente no lote, e quando os testes de captura de antígeno ou PCR serão negativos.

Mais informações você encontra na edição de Aves de abril/maio de 2017 ou online.

Fonte: O Presente Rural

CBNA

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