Sanidade - 19.02.2018

Imunocastração: uma técnica globalizada e mundialmente aceita

Imunocastração é uma medida que evita o sofrimento e estresse causados pela castração cirúrgica

- Divulgação/Assessoria

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Artigo escrito por Larissa Spricigo, médica veterinária, pós graduada em Gestão Empresarial e gerente de Produto da Zoetis

Durante muitos anos a castração cirúrgica foi a única alternativa para eliminação do odor desagradável de machos inteiros (causado pelo acúmulo de androstenona e escatol), apesar de provocar dor e angústia nos leitões. Estudos científicos indicam que há alterações na frequência cardíaca, atividade cerebral, vocalização e liberação de hormônios relacionados ao estresse. Além disso, os procedimentos cirúrgicos também estão associados a perdas devido a inflamação crônica e infecções.

Segundo estudo publicado em 2005, à medida que a sociedade passa a reconhecer o sofrimento animal como um fator relevante, pode-se inferir ao bem-estar animal um valor econômico integrante dos cálculos de valor dos produtos. Nas sociedades de demanda mais desenvolvida existem estudos detalhados do impacto que o padrão de bem-estar pode ter nas relações de escolha por parte do consumidor.

O abate de suínos machos inteiros antes da maturidade sexual também pode prevenir o acúmulo de androstenona e escatol na carcaça. Entretanto, o abate em uma idade relativamente precoce e o baixo peso vivo (<75-80 kg) resulta em perdas de produção e aumento dos custos de processamento e desossa inaceitáveis.

Atendendo o crescente interesse mundial em torno do bem-estar animal e as técnicas aplicadas aos animais de produção, a imunocastração é uma medida que evita o sofrimento e estresse causados pela castração cirúrgica.

Em 2010, a Europa debateu amplamente as questões ligadas ao bem-estar animal dos suínos, o que resultou na Declaração Europeia sobre alternativas à castração cirúrgica, estabelecendo a imunocastração como uma das recomendações. Um acordo foi firmado entre produtores, abatedouros, frigoríficos, veterinários e ONGs para o abandono definitivo da castração cirúrgica, iniciando em alguns países já a partir de janeiro de 2018.

A castração imunológica de suínos machos é uma alternativa eficaz e segura frente à castração cirúrgica e cada vez mais utilizada mundialmente para reduzir o odor de macho inteiro e melhorar a qualidade da carne suína. A técnica refere-se à imunização para suprimir a função testicular, induzindo o próprio sistema imunológico do suíno a produzir anticorpos contra o GnRF (fator liberador de gonadotrofinas). Este é o fator responsável por iniciar os eventos fisiológicos primários responsáveis, ao final, pelo acúmulo de substâncias causadoras do odor nas carcaças de suínos machos inteiros. Uma enorme quantidade de trabalhos de pesquisa e desenvolvimento foi necessária para tornar o conceito da castração imunológica uma realidade prática. A ideia de usar o próprio sistema imune do suíno para bloquear temporariamente a função dos testículos, e dessa forma controlar o odor de macho inteiro na carne, é simples em teoria, porém exigiu ciência de alto nível para transformá-la em proposição comercial. Este método único de castração pode ser alcançado sem o uso de drogas, hormônios, produtos de origem animal ou material geneticamente modificado.

A tecnologia da imunocastração está disponível comercialmente desde 1998 e foi utilizada pela primeira vez na Nova Zelândia e Austrália, onde foi desenvolvida. Essa técnica revolucionou a produção de suínos e está sendo amplamente explorada em diferentes sistemas ao redor do mundo, pois proporciona melhorias em toda a cadeia produtiva.

Atualmente a tecnologia de imunocastração foi avaliada e aprovada pelos órgãos regulatórios mais exigentes do mundo, entre eles Mapa, Emea, FDA, USDA, JECFA, entre outros, estando registrada em mais de 60 países para controle do odor de macho inteiro. Além disso, esta tecnologia também está disponível para supressão temporária do estro em fêmeas em seis países: Brasil, México, Espanha, Chile, Canadá e Colômbia. Disponível localmente desde 2005, o Brasil foi um dos países pioneiros na adoção da imunocastração, e atualmente tem indicação de uso para machos e fêmeas.

A comunidade científica dispõe de mais de 300 estudos publicados sobre imunocastração, englobando áreas de resultados zootécnicos, manejo, meio ambiente, bem-estar animal, nutrição, comportamento animal, testes sensoriais, consumidores, qualidade de carne e desenvolvimento de produtos cárneos, entre outros.

Diversos estudos demonstram os benefícios desta tecnologia. Para um desses autores, na fase de terminação, suínos imunocastrados apresentam melhor ganho de peso, conversão alimentar, rendimento de carcaça e porcentagem de carne em relação aos castrados cirúrgicos. A utilização de machos imunocastrados aumenta a lucratividade na produção de suínos.

Para fêmeas a técnica resulta na supressão temporária da manifestação do cio. Com a supressão do cio, retoma-se o controle das curvas de consumo de ração e crescimento permitindo que as mesmas atinjam um maior peso ao abate com menos tempo de alojamento, compondo lotes mais pesados e uniformes. A maior produção de carne nas fêmeas de terminação otimiza todo sistema de produção, assim como a estrutura de processamento no frigorífico. A supressão do cio também está alinhada com o bem estar animal, já que reduz o estresse do manejo pré-abate, principalmente durante o carregamento.

Cabe ressaltar que, em testes realizados sobre avaliação sensorial da carne de suínos imunocastrados comparativamente com a carne de suínos castrados cirurgicamente, o percentual de aceitação da carne dos imunocastrados foi superior ao dos castrados cirurgicamente.

Com a tecnologia aprovada pelos principais países produtores, importadores, exportadores e consumidores de carne suína, não há barreira regulatória alguma para a carne de animais imunocastrados, que é bem aceita e comercializada em diversos mercados. No Brasil é uma prática amplamente utilizada, que já foi testada e aprovada em todos os sistemas e modelos de produção do país. É uma alternativa segura e confiável, com amplas vantagens competitivas pelos benefícios econômicos e de bem-estar animal exigidos nos dias atuais pelos produtores, veterinários, processadores e consumidores.

Mais informações você encontra na edição de Suínos e Peixes de janeiro/fevereiro de 2018.

Fonte: O Presente Rural

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