Reprodução - 04.10.2018

Impacto de quatro doenças reprodutivas da pecuária leiteira

Reprodução é sem dúvida um dos pontos mais importantes que devem ser levados em consideração

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Artigo escrito por Giovani Pastre, médico veterinário, especialista em Produção de Leite e Reprodução Bovina, metre em Ciência Animal e gerente Técnico Biológicos - FPA  - Virbac Brasil

A pecuária leiteira é sem dúvida um negócio muito rentável. Apesar de ocorrerem continuamente variações de preço pago ao produtor e variações no preço das commodities usados como alimentos para as vacas, a atividade mostra-se ainda assim bem atrativa. Porém seu máximo retorno econômico depende da adequação de inúmeros pontos da “porteira para dentro”.

A reprodução é sem dúvida um dos pontos mais importantes que devem ser levados em consideração. Saber como está o nível de eficiência reprodutiva é fundamental para saber o quanto pode ser melhorado. O intervalo entre partos (IEP) de uma fazenda é um indicativo básico e de fundamental conhecimento para determinar o status de eficiência reprodutiva que fazenda se encontra. Dados da Embrapa nos mostram um aumento de cerca de 8% na produção a cada 30 dias que conseguimos reduzir o IEP.

O aumento de 8% na produção a cada 30 dias de redução no IEP pode nos dar uma ideia de como a produção pode aumentar, em um rebanho com longos intervalos entre partos, com 18 meses de IEP, por exemplo, para um rebanho com 12 (ideal) ou até 13 meses de IEP. O aumento da produção pode ser de até 48% quando saímos de 18 meses para 12 meses de IEP.  48% de aumento é muita coisa para um setor em que o lucro vem em centavos com os ajustes dos mínimos detalhes dentro da fazenda.

Principais causas de falhas reprodutivas e perdas gestacionais

Qual é a saída para chegarmos nos almejados 12 meses de IEP?  Ter uma reprodução eficiente é a base para alcançar este patamar. E quando falamos de reprodução em bovinos de leite, inúmeros fatores estão envolvidos nas perdas gestacionais. No campo, em contato com fazendeiros e veterinários, estima-se perdas na ordem de 25% no início da gestação, com repetições de cio e morte embrionária até os 42 dias de gestação. Dos 42 dias até o parto, perdas na ordem de 10% são visualizadas rotineiramente.

Quais os fatores estão envolvidos com estas perdas?

 Diversas são as causas envolvidas, sendo as principais descritas a seguir:

  • Falha nutricional: A energia é o principal nutriente requerido por vacas em reprodução. A mineralização de vacas no período de transição é muito importante para o desempenho reprodutivo pós-parto.
  • Problemas de micotoxinas na dieta: sabe-se alimento má conservados podem trazer micotoxinas em sua composição, o que resulta em falhas reprodutivas.
  • Excesso de proteína na dieta: o uso de dieta não balanceada pode resultar em excesso de proteína na dieta, o que leva ao aumento do nitrogênio circulante, sendo este tóxico para o embrião.
  • Problemas de estresse térmico, principalmente em regiões e épocas onde as temperaturas são mais altas.
  • Falhas de detecção de cio: a falha de detecção de cio é um dos principias problemas para quem usa a inseminação artificial ou monta controlada. Problemas relacionados com manejo de sêmen, como conservação, momento da inseminação, habilidade do inseminador podem resultar em taxas de concepção baixas.
  • Metrite e endometrite puerperais são também consideradas causas de falha na concepção.
  • Plantas tóxicas: A ingestão de determinadas plantas toxicas pode levar a perdas gestacionais em bovinos.

Doenças Reprodutivas

Dados da Embrapa mostram que o impacto das doenças reprodutivas na pecuária de leite é muito grande. Estima-se que cerca de 40 a 50% de todos os problemas encontrados tem relação com doenças reprodutivas.

Dados de laboratórios especializados em diagnósticos mostram que mais de 90% dos rebanhos tem presença de IBR e BVD, mais de 82% tem presença de leptospiras e entre 23 a 72% dos rebanhos têm presença de campylobacter.

Principais doenças reprodutivas dos bovinos

Leptospirose

É uma importante zoonose com presença forte em fazendas de leite e corte. A doença está presente no rebanho, oriunda de contato dos bovinos com roedores e animais silvestres. A contaminação pode ser direta ou indireta, onde temos diferentes maneiras de contaminação:

  • Contato de roedores com ração que será destinada ao consumo dos bovinos
  • Roedores com acesso livre em saleiros
  • Roedores com acesso a aguadas usadas pelos bovinos
  • Presença de capivaras em aguadas
  • Presença de roedores nos cochos de fornecimento de silagens e rações

A partir da contaminação de uma única vaca, vemos o problema relacionado com reprodução, repetição de cio, morte embrionária ou aborto nesta vaca, porém ela passa para o estado de “portador renal”, em que toda vez que urinar estará jogando no ambiente urina com presença de leptospira, o que pode agravar ainda mais os problemas reprodutivos da fazenda, pois esta vaca tem alto risco de contaminar outras vacas presentes no rebanho.

Para o controle de leptospirose ser eficiente, diversas ações são necessárias dentro da fazenda.

1. Controle de roedores para evitar que tenham contato com alimentos e contaminem mais vacas
2. Bloqueio de acesso a áreas alagadas: áreas alagadas acabam sendo uma das formas mais comuns de contaminação de vaca para vaca.
3. Tratamento de animais positivos: é uma medida importante a ser tomada, pois nenhuma vacina tem poder de curar uma vaca portadora renal, então, uma estratégia boa de controle é:

3.1 O tratamento de casos pontuais (vacas que apresentam problemas de repetição de cio, morte embrionária ou abortos) imediatamente após a ocorrência.
3.2 Tratar todas as vacas na secagem, até passar pelo tratamento em todas as vacas

4. Vacinação de todos os animais em reprodução: de nada adianta fazermos as medidas relacionadas com meio ambiente e tratamento dos animais se não pensarmos em uma proteção efetiva. Existem várias vacinas disponíveis no mercado, com número variável cepas presentes. O objetivo da vacinação é obter proteção para um maior número de leptopiras.  

O Programa de vacinação para leptospirose deve ser intensificado de acordo com o desafio de cada fazenda. Sempre converse com seu veterinário para ajustar o melhor programa.

BVD – Diarreia viral bovina

A BVD é uma doença que causa importante impacto econômico na atividade leiteira. Nos animais gestantes, podem ocorrer os sintomas reprodutivos, como abortos, natimortos, má formação fetal e absorção embrionária.

Além desses sintomas reprodutivos, a doença pode levar os animais a um quadro de imunossupressão, deixando-os vulneráveis a outras enfermidades e, ainda, reduzir a produção de leite. Os animais persistentemente infectados (PI) são procedentes de mães que tiveram contato com o vírus, entre 40 e 120 dias de gestação. Estes animais são a fonte de transmissão viral, pois são responsáveis pela manutenção do vírus no rebanho. “Apesar de muitos animais PI nascidos terem algum problema visual relacionado com deficiência ou desenvolvimento reduzido, muitos deles nascem com aspecto normal e acabam fazendo parte do rebanho, o que aumenta o impacto negativo da doença no plantel.

As principais vias de eliminação do vírus são: secreções nasais, saliva, sangue, fezes e urina. Em rebanhos onde os animais não tiveram nenhum contato prévio com o vírus e não possuem qualquer tipo de imunização, podem ocorrer surtos esporádicos com altas taxas de aborto após a infecção inicial.

Para controle de BVD, o ideal é a identificação e eliminação de animais PI, uma técnica ainda pouco disponível no campo, com o uso paralelo de vacinação sistemática de todo rebanho. Os intervalos de aplicação devem ser ajustados de acordo com o médico veterinário, podendo ser intensificadas em casos de presença forte de BVD, identificada através de exames sorológicos.

IBR – Rinotraqueíte Infecciosa Bovina

A IBR é uma doença causada pelos herpes vírus bovino tipos 1 e 5. A vaca se contamina com o vírus quando exposta a animais portadores. Uma vez contaminados, os animais permanecem positivos por toda sua vida, ficando o vírus em estado de latência. Quando ocorre queda de imunidade dos animais, o vírus reativa e causa problemas relacionados com a reprodução e problemas respiratórios nos animais afetados.

Os sintomas reprodutivos visualizados são repetições de cio, morte embrionária e abortos.  A manifestação clínica do vírus no sistema reprodutivo compreende lesões herpéticas em todo sistema reprodutivo, levando a infertilidade temporária nos animais acometidos. Os sintomas respiratórios visualizados são ocorrência de corrimento nasal, tosse e secreção ocular nos animais acometidos.

O objetivo da vacinação do rebanho para IBR é manter as vacas positivas com alto status imunitário frente aos vírus, impedindo que ocorra a manifestação clínica nestes animais, e também proteger as vacas negativas, impedindo a contaminação de um eventual contato com animais portadores. A vacinação usada de forma continua no rebanho proporciona a quebra da cadeia epidemiológica da doença, em que vacas positivas acabam sendo eliminadas do rebanho por diferentes critérios e substituídas por novilhas negativas que já entraram no esquema de vacinação desde bezerra.

Campilobacteriose

Campylobacter é uma bactéria que tem presença nas criptas prepuciais de touros. Os touros, no momento da monta, transmitem a bactéria para as vacas, ocasionando problemas desde repetições de cio ou até mesmo abortos entre 5 e 6 meses de gestação.

O controle ideal é a avaliação dos touros frequentemente, fazendo testes de raspado prepucial e cultura de campylobacter.  Este controle acaba sendo pouco usado no campo, diante disso a melhor forma de prevenção é a vacinação das vacas, protegendo contra a bactéria, e a vacinação também dos touros.

O que é importante fazer para obter o máximo controle das doenças reprodutivas

A utilização de um programa de vacinação do rebanho é fundamental para obtenção de proteção dos principais agentes envolvidos. A vacina mais completa e mais moderna disponível no mercado tem efetiva proteção para 15 agentes que causam perdas reprodutivas, sendo 2 cepas de IBR, 2 cepas de BVD, 3 cepas de Campylobacter e 8 cepas de Leptospira. 

Mais informações você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de agosto/setembro de 2018 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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