Bem-Estar Animal - 01.06.2018

Gaiolas, baias ou sistema misto: qual a melhor escolha?

Atender as exigências do mercado e do consumidor por bem-estar animal sem perder em produtividade é desafio na hora de escolher um sistema de produção

- Arquivo/OP Rural

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Atender a todas as normas de bem-estar, garantindo não somente mais conforto aos animais, como também melhores resultados produtivos na granja é uma prioridade do suinocultor brasileiro. Mas, com diversas opções e diferentes opiniões sobre cada modelo de criação, surgem dúvidas dos produtores sobre qual sistema utilizar. Para sanar algumas destas dúvidas, o médico veterinário e consultor Técnico Comercial de Suínos na Agroceres Multimix, Evandro Cunha, fala sobre “Alojamento de leitoas gestantes em gaiolas, baias ou sistema misto: efeito na performance reprodutiva, lesões e peso da leitegada” durante o Simpósio Internacional de Suinocultura (Sinsui), que aconteceu em maio, em Porto Alegre, RS.

Cada um dos sistemas tem seus prós e contras. Cunha esclarece que no sistema de gaiolas as fêmeas suínas ficam alojadas em espaços individuais de 0,6 metro de largura por 2 metros de comprimento, aproximadamente, espaço bastante restrito. “Nesse sistema as matrizes permanecem protegidas, principalmente, das brigas com outras matrizes, detalhe importante para a reprodução, pois se têm eventos fisiológicos, até os 28 dias de gestação, muito sensíveis a qualquer estresse da matriz”, comenta. Ele explica que as brigas fazem parte do comportamento natural dos suínos para delimitar hierarquia, sendo crítico, principalmente, até o terceiro dia após agrupamento de suínos de diferentes origens. “Por isso consideramos, mesmo que no sistema coletivo, o uso estratégico das gaiolas”, afirma.

Cunha explana que no sistema misto, com o objetivo de não prejudicar a reprodução, é utilizado gaiolas por período de até 28 dias - sendo este o limite permitido pela legislação da União Europeia. No Brasil os prazos em gaiolas do sistema misto, explica, podem ser maiores. “No Brasil podemos observar períodos maiores em gaiolas, de acordo com o espaço das granjas, já que não há legislação vigente sobre esse tema”, conta. Já no sistema de baias não são utilizadas gaiolas, ou, se são, somente para a inseminação, transferindo para as baias as fêmeas com até sete dias após a inseminação, esclarece. “Essas baias podem ter diferentes formatos, mas recomenda-se pelo menos 2,2 m² por matriz”, sugere.

Cada um com as suas peculiaridades, escolher qual seria o melhor sistema ainda gera dúvidas entre produtores. O médico veterinário revela que o sistema de gaiolas possibilita um controle individual quanto à alimentação e a observação das matrizes, com ótimo desempenho reprodutivo desses animais. “Porém, sabemos que esse sistema é restritivo quanto ao bem-estar gerado às matrizes suínas”, considera.

Cunha observa que já o alojamento em baias coletivas se torna a principal solução para se trabalhar em um sistema intensivo de produção, com melhora em alguns pontos do bem-estar dos suínos e. Ele explica que se o manejo for feito com perícia é possível alcançar níveis produtivos semelhantes ao sistema de gaiolas. “É importante considerarmos que o alojamento coletivo sofre influência de muitas variáveis, como por exemplo, quanto ao período para alojar as fêmeas (sistema de baias ou sistema misto), tipo de alimentação, tamanho das baias, número de animais nas baias, densidade animal, ambiência, entre outros”, comenta.

O profissional diz que é necessário um maior entendimento dessas variáveis e suas interações, para manter os resultados produtivos alcançados no sistema de gaiolas. “Acredito que temos que nos adaptar às demandas do mercado consumidor e o uso de alojamentos coletivos faz parte dessa adaptação”, afirma.

Na performance reprodutiva...

Nos sistemas coletivos, baias ou misto, as fêmeas podem se movimentar e manifestar alguns de seus comportamentos naturais, explica Cunha. Porém, ao alojar em grupos em um espaço restrito, é intensificado o comportamento de disputa por hierarquia, espaço e alimento. “Os três primeiros dias após o alojamento das matrizes são críticos, pois as fêmeas brigam para estabelecer hierarquia dentro da baia. Pensando nisso, o período gestacional em que vamos agrupar essas fêmeas nas baias é muito importante”, diz.

O médico veterinário afirma que é sabido que há eventos fisiológicos, dos 7 aos 28 dias de gestão, muito sensíveis a qualquer estresse de matriz. Portanto, fica claro que se deve evitar estresse no período gestacional. “No sistema de gaiolas e no sistema misto mantemos as fêmeas protegidas a esses efeitos estressantes das brigas e disputas. Os sistemas de gaiolas e misto têm apresentado melhores resultados reprodutivos, com menores perdas reprodutivas”, conta.

Cunha acrescenta que o sistema de baias tem o benefício de reduzir ao máximo a utilização das gaiolas, porém as matrizes sofrem estresse em um período crítico da gestação. “Sabemos que essas disputas diminuem, porém permanecem por toda gestação, o que pode levar a perdas reprodutivas e a maiores lesões das fêmeas”, diz o profissional. Ele afirma que quando se fala dos sistemas de gestação coletiva é possível observar um aumento expressivo das lesões de casco. “E sabemos que os descartes de matrizes por problemas locomotores se tornam a principal causa de remoções. Além disso, nos sistemas de baias, temos maiores perdas reprodutivas quando comparado ao sistema misto e ao sistema de gaiolas”, completa.

Lesões frequentes

Outro problema que preocupa produtores devido ao sistema escolhido são as lesões que podem acontecer. Cunha esclarece que sem dúvida, os sistemas coletivos, baias ou misto geram mais lesões. “São intensas as brigas logo após o agrupamento dos animais de diferentes origens buscando estabelecer a hierarquia, independente do momento da gestação em que são manejadas na baia”, informa. Ele acrescenta que também ocorrem as disputas por alimento durante a gestação, mesmo quando há sistema eletrônico de alimentação EFS (Eletronic Sow Feeding). “Isso porque nesse sistema as fêmeas acabam dominando o espaço de entrada de alimento e as brigas ocorrem em torno do equipamento. As lesões permanecem em várias regiões do corpo, principalmente cascos, o que impacta bastante a produção”, afirma.

O médico veterinário diz ainda que o sistema de gaiolas evita lesões geradas por brigas, porém é preciso entender que ao restringir o espaço, os movimentos e manifestações de comportamento, o produtor está privando as matrizes. “Temos, portanto, que buscar soluções nos alojamentos coletivos. Para reduzir as brigas e lesões, devemos dar a devida atenção à densidade animal dentro das baias, ao dimensionamento correto do sistema de alimentação por fêmea, seja eletrônico ou manual, ao desenho das baias, qualidade de piso, etc.”, instrui.

Para ele, por isso é importante que a implementação desses novos sistemas seja planejada, para que os resultados do alojamento coletivo possam ser semelhantes aos alcançados em gaiolas.

Interferência no peso da leitegada

De acordo com Cunha, alguns pesquisadores acreditavam que com maior bem-estar das matrizes e maior possibilidade de se exercitar, seria possível uma influência positiva no peso dos leitões ao nascer. “Além disso, as disputas e falhas de manejo poderiam comprometer o peso ao nascimento”, diz. Mesmo com estas afirmações, o médico veterinário conclui que não existem diferenças visíveis entre cada uma das formas de alojamento no peso da leitegada. “Se bem manejadas no alojamento coletivo, essa diferença de peso não é observada”, afirma.

Ele informa que os sistemas coletivos com ESF necessitam de uma etapa de manejo bem delicada, que é o treinamento das fêmeas para entrar no sistema de alimentação, uma espécie de casinha onde só entra um animal por vez. “Dimensionar bem as baias de treinamento e manejar as leitoas pelo período adequado pode ser decisivo para que não ocorram falhas de alimentação em alguns animais e, consequentemente, problemas de baixa condição corporal, remoção de fêmeas do sistema e, eventualmente, comprometimento do peso ao nascer”, esclarece.

O profissional destaca que é necessário o produtor se adequar aos sistemas com melhor bem-estar animal. “Para que isso ocorra da melhor forma, temos que diminuir o risco das adaptações sem muito planejamento”, afirma. Cunha diz que já existem muitas informações fora do país, onde se utilizam os sistemas coletivos há mais tempo, que podem servir como referência para as adequações, porém sem ignorar as condições brasileiras de infraestrutura e mão de obra. “Pensando na facilidade de manejo e em manter bons resultados, acredito que o sistema misto, já praticado em uma boa parcela de produtores, seja uma alternativa viável para nossa realidade”, aponta.

Mais informações você encontra na edição de Suínos e Peixes de maio/junho de 2018 ou online.

Fonte: O Presente Rural

FACTA Dez 2018

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