Sanidade - 19.07.2018

Fatores pouco abordados sobre mastite: além da desinfecção dos tetos

Os casos clínicos são fáceis de identificar, mas, apesar de serem mais traumáticos, não são os que geram maior prejuízo em uma propriedade

- Divulgação

 -

Artigo escrito por Petterson Souza Sima, zootecnista e mestre em Zootecnia e supervisor técnico nacional da Hypred Brasil

Há muito já é sabido que a mastite é uma das principais causas de prejuízos econômicos significativos ao produtor, com grande redução na produção e na qualidade do leite. O real custo da mastite depende de vários fatores, mas somando-se os investimentos em prevenção a todos os prejuízos decorrentes, com medicamentos, aumento da mão de obra, descarte de leite e de animais, cuidados veterinários e redução na produção, estimou-se em alguns trabalhos que os valores superam R$ 1 mil vaca/ano, chegando até R$ 1,6 mil vaca/ano em outros trabalhos, assim como custos relativos à renda bruta da fazenda variando entre 15 e 24%; enquanto os custos relacionados apenas à prevenção muitas vezes não superam 10% desse valor. Aqui, mais uma vez, prevenir é bem melhor do que remediar.

Os casos clínicos (MC) são fáceis de identificar, mas, apesar de serem mais traumáticos, não são os que geram maior prejuízo em uma propriedade. A mastite subclínica (MSC), promovendo redução na produção leiteira, é a responsável pela maior parcela do prejuízo na maioria dos casos; e muitas vezes não é contabilizado porque o produtor não precisa tirar dinheiro do bolso para pagar, pois o leite que se deixa de produzir é dinheiro que deixa de entrar no bolso. Uma perda “invisível”.

A contagem de células somáticas (CCS) é o critério mundialmente mais utilizado por indústrias, produtores e entidades governamentais para o monitoramento da mastite em nível individual, de rebanhos e para avaliação da qualidade do leite.

Pesquisas diversas estipulam o limite de 200 mil cels/mL para determinar um quadro de MSC. E vários são os trabalhos que indicam que vacas com CCS entre 200 e 500 mil cels/mL já apresentam perdas de 7 a 12%. A nível de rebanho (CCS no tanque), a mesma faixa de CCS representa uma redução média de 26% da produção do rebanho.

Sendo a mastite uma doença multifatorial, um trabalho sistêmico deve ser realizado para redução dos níveis de CCS e consequente ocorrência de mastites. Aspectos nutricionais e sistema imune, ambiência, sujidade no local de permanência dos animais, procedimento de ordenha adequado e higiênico, limpeza, desinfecção e manutenção do equipamento de ordenha, tratamento imediato de casos clínicos de mastite, tratamento de vaca seca no momento adequado (avaliação de dias em lactação) e com antibióticos eficientes, e descarte e segregação dos animais cronicamente infectados, são pontos usualmente abordados pela maioria dos produtores e profissionais do setor.

Tetos lesionados

Mas existem outros aspectos relacionados à ocorrência de mastite que nem sempre são lembrados. Podemos destacar o escore ou integridade dos tetos, sanitização dos conjuntos de ordenha entre cada vaca ordenhada e incidência de doenças com alta correlação com desenvolvimento de mastite, como doenças de casco.

A manutenção da integridade dos tetos é um ponto de enorme importância. A pele do teto é bastante delicada e sofre bastante com procedimentos e produtos agressivos, mesmo em vacas de raças mais rústicas. Estudos apontam que tetos lesionados tendem a um aumento de CCS e ocorrência de mastite.

Tetos lesionados possuem até sete vezes mais chance de apresentar diagnóstico positivo em CMT, comparado à tetos sadios. Pesquisadores avaliaram gravidade de lesão em mais de 1,2 mil tetos e observaram que tetos com lesões leves, moderadas e graves apresentavam, em média, níveis de CCS de 178, 306 e 412 mil cels/mL, respectivamente. Em outro trabalho, comparando tetos sadios e lesionados, observou-se médias respectivas de 372 e 659 mil cels/mL.

Tetos lesionados acumulam uma carga microbiana maior e, muitas vezes, são mais difíceis de se desinfetar e retirar toda a sujeira impregnada nas fissuras e rachaduras, aumentando a exposição do úbere a contaminações. Por tudo isso, o conceito de saúde de úbere como um todo é de grande importância.

Mais do que limpar e desinfetar os tetos, precisamos diminuir os efeitos agressivos do processo de ordenha e utilizar produtos de pré e pós-dipping que, mais do que apenas não agredir, promovam a saúde e integridade do teto com compostos que sejam eficientes na hidratação, renovação celular e cicatrização, a exemplo do ácido lático, LSA (ácido lático + ácido salicílico), aloe vera, glicerina, lanolina, entre muitos outros.

Sanitização das teteiras

Um dos grandes desafios na prevenção de novos casos de mastite é a contaminação cruzada entre as vacas. E hoje o principal vetor nesse processo são as teteiras, pois uma vaca infectada as contamina e expomos o úbere da próxima vaca a ser ordenhada àquele microrganismo. A sanitização de teteiras durante a ordenha é um manejo que visa controlar justamente essa contaminação cruzada, eliminando os microrganismos que foram depositados nas teteiras. Mas cuidados são necessário na adoção desse método.

O uso de produtos à base de cloro é comum, mas tem desvantagens. O cloro perde sua eficiência na presença de matéria orgânica, diminuindo sua ação ao longo da ordenha. Além disso, pode deixar resíduos de cloreto no leite a partir de sua utilização. Produtos à base de ácido peracético têm se mostrado uma ótima alternativa, principalmente quando formulados com estabilizantes adequados, pois além de terem maior espectro de ação contra microrganismos do que o cloro, não há reação de resíduo de cloreto no leite e apresenta boa eficiência mesmo na presença de matéria orgânica.

Para sanitização das teteiras, o modo de uso mais difundido é a sanitização no balde com solução, que, apesar do manejo fácil, apresenta desvantagens, como alta contaminação da solução por matéria orgânica, reduzindo a ação do princípio ativo, alto consumo de produto e grande risco de sugar a solução para a linha do leite.

O manejo com borrifador diretamente dentro das teteiras é muito mais seguro e eficiente, desde que utilize produtos estáveis, amplo espectro, rápida ação e eficazes mesmo na presença de matéria orgânica, além da economia por precisar de pouco volume de solução.

Doenças de casco

Por fim, outro fator que influencia no aumento de CCS e desenvolvimento de mastites são as doenças de casco. Estudos apontam incidência de manqueiras de 15 a 55% do plantel, em diversos rebanhos leiteiros no mundo. Devido à dor, vacas claudicantes passam muito tempo deitadas, o que permite que até 60% dessas vacas desenvolvam novos casos de MC, além da redução média na produção de até 9,3 kg de leite vaca/dia ou 36% da produção. Em outro estudo, houve um aumento de até 73% da CCS em vacas claudicantes.

Esses desafios estão presentes em nossa pecuária leiteira. Em muitas propriedades a mastite e controle de CCS é o maior desafio. Apenas com trabalho árduo e paixão pela atividade conseguiremos superar esse desafio e produzirmos leite de alta qualidade.

Mais informações você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de junho/julho de 2018 ou online.

Fonte: O Presente Rural

VIII Clana

NEWSLETTER

Assine nossa newsletter e recebas as principais notícias em seu email.

VIII ClanaEurotierPORK EXPO 2018IntercorteACAV 2018INTERCONF