BEA - 01.10.2018

Especialista recomenda “transição suave” para programa AGP free

As indústrias brasileiras já estão, gradativamente, se preparando para banir os antibióticos como promotores

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A produção livre de antibióticos como promotores de crescimento vai acontecer em todas as fases da produção avícola, a partir das matrizes pesadas. Realidade na Europa, a produção de matrizes pesadas pelo sistema AGP free já é regulamentada. Por lá, nada de antimicrobianos como promotores de crescimento. Já no Brasil as regras – ainda - são mais liberais, dando chance à indústria de usar esse medicamento para melhorar o desempenho do animal por meio de ação em seu sistema gastrointestinal. No entanto, acertadamente, comenta uma das estudiosas do assunto no Brasil, as indústrias brasileiras já estão, gradativamente, se preparando para banir os antibióticos como promotores.

“A produção AGP free já é uma realidade internacionalmente e o Brasil, como maior exportador mundial de carne de frango, vem adaptando-se às exigências dos mercados importadores. Acredito que a exigência no mercado interno também só tende a crescer, visto que as legislações vêm demonstrando a preocupação e engajamento do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) no conceito de saúde única e com os planos de ação sobre resistência aos antimicrobianos, prevendo ações de educação sanitária e de promoção do uso racional de antimicrobianos”, aponta Patricia Aristimunha, médica veterinária, especialista em Sanidade de Aves, mestra em Zootecnia e doutora em Produção e Nutrição de Não Ruminantes.

“A transição suave para um programa AGP free, com a adaptação das diferentes estratégias e soluções alternativas aos diferentes desafios, é o que garantirá a manutenção dos altos desempenho produtivo e retorno do investimento”, crava.

Ela conta que o uso começou a mais de meio século, e que ao longo dos anos as legislações de vários países foi se tornando cada vez mais rigorosa para usar esses medicamentos. “Para produzir mais e de forma competitiva, há mais de 50 anos, os antibióticos promotores de crescimento (APC ou AGP) vêm sendo utilizados na nutrição animal para aumentar a eficiência produtiva. Porém, a sua utilização na alimentação animal tem sido tema de debates e discussões mundiais em razão da possibilidade da presença de resíduos de antimicrobianos e de seus metabólitos em produtos de origem animal, da possível seleção de bactérias resistentes e do aparecimento crescente de resistência aos antibióticos em bactérias patogênicas”, cita. “Cada vez mais países vêm aderindo às restrições e banimentos a esta prática, à exemplo da União Europeia, que em 2006 baniu o uso dos antibióticos na alimentação animal. Por estas razões, a indústria avícola tem buscado alternativas ao uso dos antimicrobianos para manter a mesma eficiência produtiva proporcionada pelos promotores antimicrobianos tradicionais, reduzindo o perigo de induzir a resistência microbiana”.

O mundo AGP free

Em maio de 2015, comenta Aristimunha, a Organização Mundial da Saúde (OMS), com a participação da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) e da Organização Mundial da Saúde Animal (OIE), aprovou o Plano de Ação Global sobre Resistência Antimicrobiana (Global Action Plan on Antimicrobial Resistance), que resultou na demanda de elaboração do Plano Nacional de Ações sobre Resistência aos Antimicrobianos para cada país signatário.

Em outubro do mesmo ano, menciona a profissional, a U.S. Food and Drug Administration (FDA) lançou sua regra final de diretivas veterinárias para a produção de alimentos com o intuito de proibir o uso de medicamentos na alimentação animal sem a supervisão de um médico veterinário. “Além disso, também em 2015, o então presidente Barack Obama lançou o plano nacional para combater bactérias resistentes a antibióticos, que, em uma de suas resoluções, também exige que os produtores de animais necessitem de receitas de médicos veterinários para o uso de antibióticos importantes para a medicina humana, no tratamento de animais de consumo humano, e prevê o fim do uso de medicamentos importantes para uso humano como promotores de crescimento até 2020”, recorda.

Aristimunha diz que o Brasil segue a tendência mundial. “O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), em outubro de 2017, instituiu o Programa Nacional de Prevenção e Controle de Resistência a Antimicrobianos na Agropecuária (AgroPrevine). O AgroPrevine visa o fortalecimento das ações para prevenção e controle da resistência aos antimicrobianos na agropecuária, considerando o conceito de saúde única, que estabelece a interdependência entre a saúde humana, animal e ambiental, por meio de atividades de educação, vigilância e defesa agropecuária”, comenta. Dentro das ações previstas por este plano, enumera estão “educação sanitária, estudos epidemiológicos, vigilância e monitoramento da resistência aos antimicrobianos, vigilância e monitoramento do uso de antimicrobianos, fortalecimento da implementação de medidas de prevenção e controle de infecções, além de promoção do uso racional de antimicrobianos”.

Neste cenário, avalia a especialista, “faz-se necessárias a adoção de novas estratégias holísticas dentro da produção animal, e de novos programas que envolvam tecnologias de substituição aos antibióticos promotores de crescimento, dando-se foco ao uso de combinações de soluções disponíveis, como os probióticos, prebióticos, ácidos orgânicos, óleos essenciais e imunomoduladores, que modificam de uma maneira menos agressiva o microbioma intestinal, promovendo um melhor equilíbrio deste e uma melhoria na saúde das aves”.

O que o AGP faz

De acordo com Patrícia Aristimunha, os antibióticos promotores de crescimento são utilizados para controlar ou equilibrar a proliferação de bactérias gram-positivas (em seu conceito base), com redução dos metabólitos microbianos tóxicos que comprometem o desempenho animal e causam infecções subclínicas ou com manifestações clínicas, e que causam suposta competição por nutrientes com o hospedeiro e estímulo excessivo do sistema imune local.

“Segundo alguns autores, o uso dos AGP leva à uma redução da espessura da parede intestinal e vilosidades. Essa redução de espessura ocorre em parte pela redução na proliferação celular da mucosa que ocorre na ausência de produtos derivados da fermentação microbiana. No entanto, esta redução de espessura de mucosa é discutível, pois hoje sabe-se que a redução de vilosidades e de área absortiva compromete os processos de digestão e absorção dos nutrientes”, explica.

“Alguns AGP se acumulam nas células inflamatórias, aumentando a morte intracelular de bactérias e inibição de parte da resposta imune inata das aves, inibindo a ação de células fagocíticas e funções das células inflamatórias, como quimiotaxia, produção de espécies reativas de oxigênio e produção de citocinas proinflamatórias. A redução nos níveis de citocinas pró-infamatórias reduziriam o estímulo catabólico e a consequente perda de apetite, melhorando o desempenho dos animais”, explica.

Para ela, o foco de discussão com relação à sua utilização se deve ao fato dos mesmos muitas vezes também matarem bactérias benéficas, causando uma quebra no equilíbrio do microbioma intestinal. “Além disso, alguns AGP podem inibir os processos de fagocitose na resposta imune e desenvolver resistência bacteriana a longo prazo”, aponta.

O que é a produção AGP free

Patrícia explica que dentro do conceito de produção sem antibióticos promotores de crescimento, “globalmente falando, teremos diferentes definições de produção avícola”. “ABF (Antibiotic free): sem utilização de antibióticos via ração ou água durante o período de crescimento e produção das aves. Nesta definição, no caso da Europa, o uso de antibióticos de forma terapêutica e os ionóforos via ração são permitidos. Este é o conceito utilizado no Brasil. Nos Estado Unidos ainda existe o conceito “No Antibiotics Fed” (NAF), que determina a não utilização de antibióticos via ração”.

“Outra definição: RWA (Raised without Antibiotics): neste tipo de produção os antibióticos não são utilizados em nível de incubatório, ração ou água. Ionóforos são utilizados na ração. Tem também o NAE (No Antibiotics Ever): os antibióticos não são utilizados em nível de incubatório, ração ou água. Não é permitido também a utilização de ionóforos e algumas empresas estão também eliminando totalmente o uso de antibióticos nas matrizes pesadas. A maioria das empresas com esta produção também usa ração vegetal”, enumera, citando ainda a produção orgânica, quando “todos os ingredientes da ração são certificados como orgânicos e não há uso de produtos químicos ou antibióticos”.

Brasil no caminho

De acordo com a pesquisadora, quando os AGP foram banidos na Europa, em alguns locais, de forma repentina, os resultados foram o aumento no custo da produção, aumento da idade de abate, aumento na incidência de enterites bacterianas e do uso de antibióticos de forma terapêutica. No entanto, observou-se redução nos problemas relacionados à resistência bacteriana.

Ao fazer uma mudança gradativa e dentro de um programa AGP, entende Aristimunha, a indústria e o avicultor brasileiros podem não sofrer com os mesmos problemas. “Para que estas perdas não ocorram e a sanidade não seja prejudicada, o ideal é que a retirada dos AGP seja feita de forma gradativa, testando-se as diferentes soluções alternativas perante os desafios locais. Além disso, as alternativas devem estar integradas dentro de um programa abrangente, que perfaz diferentes estratégias de biosseguridade, manejo, nutrição, além da gestão e treinamentos dos profissionais envolvidos com a produção de aves”, menciona a profissional.

AGP free nas matrizes pesadas

Patrícia, que é gerente de Serviços Técnicos em Avicultura da Kemin para a América do Sul, compartilha seu conhecimento durante palestra sobre produção de matrizes pesadas no sistema AGP free, seus desafios e alternativas, durante o 12º Simpósio Técnico de Incubação, Matrizes de Corte e Nutrição, promovido pela Associação Catarinense de Avicultura (Acav), de 25 a 27 de setembro, em Florianópolis, SC.

Ela explica que o importante é saber com precisão o desafio ambiental ao qual as aves estão expostas. Ela destaca que no Brasil a biosseguridade e padrões sanitários em matrizes pesadas estão muito avançados, citando, por exemplo, que doenças como o Salmonella e alguns desafios respiratórios são muito bem controlados em matrizes pesadas. “A escolha de soluções alternativas vai depender do tipo e do grau de desafio a que as aves estão expostas”, menciona.

Ela amplia: “Sempre deve-se ter em mente que nenhuma solução alternativa aos AGP será eficiente se não for inserida dentro de um programa AGP free, que abranja estratégias de biosseguridade, manejo e nutrição, de combinação de diferentes soluções alternativas aos AGP, além da gestão e treinamentos constantes das equipes que trabalham diretamente com as aves”.

Atualmente, comenta a especialista, “com a variabilidade e qualidade das tecnologias disponíveis para a substituição dos AGP, e quando se analisa a produção pela ótica do retorno do investimento (ROI), muitas vezes (dependendo do desafio local) a substituição dos AGP por tecnologias alternativas iguala ou aumenta a lucratividade da produção animal, quando essa substituição ocorrer dentro de um programa alternativo, que incluiu melhorias em toda a produção, incluindo-se estratégias de manejo, ambiência, biosseguridade e nutrição”. Estes programas, pondera, “proporcionam performances zootécnicas muitas vezes superiores em relação às moléculas antibióticas que já vem sendo utilizadas por longos períodos ou em mais altas dosagens, por já não serem tão eficientes em determinadas regiões”.

Massificação

Para ela, massificar o modelo AGP free no Brasil ainda depende do consumidor, que, em sua opinião, ainda não tem conhecimento sobre o assunto, e de investimentos na infraestrutura nas fazendas. “Hoje a produção AGP free já é uma realidade nas empresas exportadores, mas ainda tem alcance limitado nas que produzem para o mercado interno. Muito disso se deve ao posicionamento do mercado consumidor, que no Brasil ainda não tem total consciência dos efeitos a longo prazo do uso dos AGP e que, portanto, não exige de forma substancial a retirada dos mesmos. Além disso, a massificação deste tipo de produção demanda fortes estratégias de manejo, ambiência e biosseguridade e, portanto, estruturas físicas adequadas para a produção das aves, o que muitas vezes, não se encontra na realidade brasileira”, garante Patrícia Aristimunha.

Mais informações você encontra na edição de Aves de setembro/outubro de 2018 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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