Antimicrobianos - 23.07.2018

Especialista elenca alternativas aos antimicrobianos na avicultura

Uso continuado de antimicrobianos exerce pressão de seleção na população bacteriana, afirma especialista Marisa Cardoso

- Arquivo/OP Rural

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A redução ou mesmo o banimento do uso de antimicrobianos na produção animal é um dos temas mais requisitados dos últimos tempos. Um desafio que se apresenta muito forte também na avicultura. A professora doutora Marisa Cardoso, do Departamento de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) falou sobre o assunto no Simpósio Brasil Sul de Avicultura 2018. A palestra “Uso racional de antibióticos e novas alternativas” foi realizada em abril, em Chapecó, SC.

O tema envolvendo a resistência de antimicrobianos é uma preocupação mundial, entende a pesquisadora. “Impacta tanto na medicina humana quanto na produção animal”, destaca Marisa. Na produção animal, o uso de antimicrobianos assume papel de destaque como melhoradores de desempenho e que estão sendo banidos ou retirados em diversos países.

Na palestra, Marisa tratou ainda do uso responsável de antimicrobianos. “Inclui critérios para o uso, controle e busca de alternativas, principalmente no que diz respeito à utilização para ganho de desempenho”. A retirada de antimicrobianos como aditivos zootécnicos impacta no custo de produção, por essa razão medidas alternativas têm sido investigadas. “Do ponto de vista sanitário, os aspectos relativos ao manejo e ao desenvolvimento de vacinas eficazes são muito importantes”.

Ainda conforme a especialista, o tema é muito atual na produção animal e na saúde pública mundial, e demandará alterações no setor produtivo. A redução ou o banimento de antimicrobianos tem apresentado impacto na produção animal em diversos países, segundo ela. Recomendações para controle de resistência e uso responsável de antimicrobianos já foram publicadas pela Organização Mundial da Saúde e Organização Mundial para Saúde Animal; e as recomendações do Codex Alimentarius serão revistas no decorrer de 2018. “A partir disso, é possível prever que esse tema, em algum momento, poderá influenciar as questões relativas ao mercado internacional”, destaca Marisa.

Gestão de uso

Conforme Marisa, o médico veterinário deveria ser o gestor do uso dos antimicrobianos na cadeia produtiva animal. “Dentro dessa estratégia, o uso de antimicrobianos é baseado em testes e diagnóstico do que está causando o problema ou qual problema busca-se efetivamente evitar”.

O correto é aplicar antimicrobianos apenas quando necessário e na dose apropriada, acredita Marisa. “Apenas princípios ativos permitidos”, amplia. Ela destaca a necessidade de manter um banco de registros dos perfis de resistência, das populações bacterianas que circulam numa determinada granja, na indústria e manter os registros do que foi utilizado e em qual quantidade.  

A questão da resistência de antimicrobianos vem sendo observada nos últimos 20 anos, lembra Marisa, nas populações bacterianas de importância animal e humana. “Não diz respeito apenas às bactérias que causam algum tipo de doença, mas também àquelas que habitam sem doenças, o que é mais preocupante”, alerta. Segundo ela, populações permanentemente expostas aos antimicrobianos tendem a desenvolver maior resistência.

Quais as causas da resistência?

A especialista explica que o conceito de bactéria resistente envolve a multiplicação de um dado antimicrobiano em concentrações maiores do que o esperado para a população. “A resistência é um processo, não é algo súbito”. A resistência antimicrobiana, explica, pode ser acompanhada pela concentração inibitória mínima de determinada população bacteriana. “Isso pode ser verificado através de testes de laboratório, da análise de uma dada bactéria em concentrações crescentes do antimicrobiano em questão”, explica.

O ponto crucial, de acordo com Marisa, é a causa da resistência. Ela divide a resistência antimicrobiana em dois grupos: aquela que ocorre por mutações espontâneas nas bactérias ou através da aquisição de genes exógenos. “A maioria dos eventos de resistência é associada a genes exógenos”. Por isso, afirma a professora, a resistência pode ter um impacto no curto prazo dentro de uma determinada população bacteriana. “Seria mais lento se fosse apenas pelos eventos de mutação, que ocorrem naturalmente nas populações”, esclarece.

Já o uso continuado de antimicrobianos, comenta Marisa, exerce uma pressão de seleção na população bacteriana. “O problema da resistência abrange todos os cenários: indústria, saúde humana, agricultura, produção animal e até mesmo o ambiente aquático”, alerta.  Ela cita a preocupação com os antimicrobianos ainda ativos eliminados via resíduos ou por desperdício – medicamentos acrescidos à ração ou na água não consumidos, por exemplo. Há ainda o caso do individuo tratado que elimina uma parcela desses antimicrobianos não metabolizados de forma ativa. 

Saúde animal X Saúde humana

Para Marisa, o controle do uso de antimicrobianos está mais focado nos efeitos para a saúde humana. “A maioria dos produtos utilizados em animais não tem impacto na saúde humana”. Neste âmbito, o uso do promotor de crescimento é o mais visado. “Porque não tem viés de proteção da saúde animal, mas sim de produção propriamente dita”, esclarece.

A maior suscetibilidade da saúde humana a bactérias resistentes é através da alimentação. “Via cepas mais resistentes selecionadas na produção animal e chegando ao consumidor não só como bactéria patogênica, mas carreando genes de importância para o próprio tratamento dessa pessoa”, afirma. Outra forma de contaminação humana por bactérias resistentes pode ocorrer através do contato direto dos trabalhadores com animais submetidos ao tratamento com antimicrobianos.

A terceira forma de contaminação é através do ambiente: água, solo, chegando de alguma forma na população humana. “Mas é de difícil comprovação, ainda não é possível responder com segurança o quanto e como isso acontece”.

A OMS - Organização Mundial da Saúde - alerta para a prescrição excessiva de antibióticos para a população, o abandono de tratamento e o controle deficiente de infecções hospitalares, permitindo que superbactérias se disseminem entre pessoas hospitalizadas. “Higiene e saneamento deficiente, tanto de efluentes como de resíduos hospitalares também são preocupantes”, complementa.

Além de todas as dúvidas quanto à resistência, Marisa destaca a carência de pesquisa em novos antimicrobianos. “Sabemos que, nas últimas décadas, a pesquisa foi descontinuada pela indústria farmacêutica, principalmente por razões econômicas”, lamenta.

Alternativas aos antimicrobianos

Marisa desconhece alternativas a antimicrobianos para uso terapêutico. “Os antimicrobianos ainda são uma ferramentas de alta efetividade para o tratamento de doenças em animais e humanos”, afirma. Com relação a profiláticos, ela cita manejo, biosseguridade, vacinas atuais ou novas vacinas a serem desenvolvidas, entre outras providencias que possam ser tomadas.

Marisa acredita que a busca por alternativas esteja mais relacionada ao uso de antimicrobianos como promotores de crescimento. “As alternativas devem ser focadas num maior entendimento da microbiota intestinal e sua relação com o hospedeiro”, diz. O mecanismo de ação dos promotores de crescimento, afirma, ainda está direcionado a uma alteração da microbiota intestinal e menor inflamação local. “Mas ainda não temos total clareza a respeito dos mecanismos”. Conforme Marisa, cientistas sugerem que moduladores da microbiota e do processo imune teriam maior potencial alternativo a esses promotores.

Ela aponta algumas alternativas já conhecidas, como ácidos orgânicos, que agem eliminando os microrganismos por efeito pH. Outra alternativa são os probióticos, que visam estimular o sistema imune. Os prebióticos geralmente são ingredientes que regulam a microbiota e favorecem bactérias benéficas. Mais recentemente, surgem os fitobióticos, que incluem uma série de óleos essenciais derivados de plantas, cujo mecanismo de ação envolve um estímulo seletivo de crescimento. “As alternativas existem, mas precisamos analisar a efetividade e o custo-benefício”, pondera.

A produção animal contribui para a seleção de bactérias resistentes, mas não é o único ator envolvido nessa cadeia, esclarece Marisa. “Existem outros importantes, mas isso não nos exime da responsabilidade de participar dessa ação global para o controle do uso de antimicrobianos e contra a resistência”. A possibilidade do não uso de antimicrobianos como promotores de crescimento poderá vir a ser uma realidade, e é preciso considerá-la.  “Alguns países já tomaram essa atitude”, destaca.

Mais informações você encontra na edição de Aves de julho/agosto de 2018 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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