Sanidade - 27.07.2017

Erros de avaliação “convidam” enterite necrótica para dentro dos galpões

Utilização de novas tecnologias para diagnóstico precoce é solução para evitar, ou ao menos diminuir, enfermidade em frangos de corte

- Arquivo/OP Rural

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A clostridiose já é uma velha conhecida de produtores e técnicos da avicultura. Mas, mesmo assim ainda causa certa dor de cabeça quando é assunto é o diagnóstico precoce da enfermidade no animal. Em aves, a doença é encontrada em quatro formas clínicas - botulismo, enterite necrótica, dermatite necrótica e enterite ulcerativa. Durante o Simpósio Brasil Sul de Avicultura, que aconteceu em abril em Chapecó, SC, a professora doutora Elizabeth Santin, que falou sobre a clostridiose em frangos de corte, comentou que atualmente a enterite necrótica, em especial, tem sido mais recorrente, principalmente pelo seu aparecimento em criações industriais de aves, sobretudo por conta da falta de cuidados com a criação.

De acordo com Elizabeth, o botulismo está relacionado ao consumo de produtos que contenham a toxina botulínica, que ocorre principalmente em material em decomposição e pode ser fatal, dependendo da quantidade consumida. Já a dermatite necrótica e a enterite ulcerativa estão associadas ao desequilíbrio entre o desenvolvimento destes microrganismos, sua patogenicidade e o sistema imune do hospedeiro. Porém, mesmo com todas as formas sendo conhecidas, é a enterite necrótica que tem causado prejuízos e maiores preocupações aos envolvidos na cadeia produtiva, menciona a especialista.

De acordo com a profissional, os clostridios são bactérias que começam a produzir condições de estresse nos animais. “A produção de toxinas vai estar relacionada a quanto a ave vai estar sob situação de estresse, que necessite que ele faça a indução dessas toxinas para tentar competir com o ambiente que ele está”, diz. Ela comenta que se o profissional vê esse tipo de situação no campo já errou bastante. “Se a enterite necrótica está na forma clínica de alguma forma, quer dizer que o profissional errou bastante na avaliação da qualidade intestinal daquele lote”. A professora afirma que é preciso se acostumar a buscar lesões antes delas acontecerem.

Elizabeth explica que o agente causador da enterite necrótica faz parte da microbiota da ave, está sempre presente, porém, alterando os níveis é que pode causar a doença. “É bastante difícil ver essa diferença. Primeiro, para estabelecer isso, temos que começar pelo básico e saber quando os níveis estão normais, quanto é aceitável, e quando o problema está acontecendo. É um problema básico, na questão do diagnóstico da enterite necrótica, é primeiro importante entender como a patogenia acontece”, afirma. A estudiosa diz que é preciso que os profissionais comecem a realmente trabalhar focados na doença, avaliando e tentando estabelecer as melhores tecnologias, que, para ela, podem ser bastante efetivas dentro do processo.

Segundo a doutora, os animais produzem bastante anticorpos, porém, há uma diferença de 18% a 76% das aves que apresentam os sinais clínicos das doenças se comparadas a aves saudáveis. “A variação é bastante grande para dizermos que realmente há uma tecnologia clara e aplicável em que podemos fazer para controlar a enterite necrótica”, diz.

Diagnóstico

De acordo com a professora, o fato do agente etiológico ser parte da microbiota, e não haver ainda um padrão das variações na concentração de enterotoxinas encontrada em lotes com enterite necrótica e saudáveis, torna bastante difícil o diagnóstico da enfermidade. Uma sugestão dada pela pesquisadora é que o profissional procure uma associação de informações que considere o histórico do lote, as lesões macroscópicas e, principalmente, os achados histológicos. “A identificação das toxinas alfa e netB também podem auxiliar bastante no diagnóstico, mas a sua aplicabilidade no campo deve ser melhor avaliada”, diz. Em estudos apresentados por Elizabeth, os títulos de anticorpos anti-netB são mais altos em aves saudáveis comparando a aves que apresentam enterite necrótica. “Assim, monitorar esses anticorpos pode ser uma alternativa para controlar a enfermidade, embora existam estudos que digam que a doença pode ser desenvolvida por estirpes não produtoras desta toxina”, informa.

Para a professora, antes mesmo de ver a enterite necrótica clínica, é preciso imaginar a inflamação acontecendo dentro de animais que são considerados saudáveis. “Esse é o princípio para começarmos a entender as novas tecnologias de diagnóstico no que se refere a enterite necrótica. É realmente atuar antes que o processo aconteça e buscar alterações que podem acontecer dentro da mucosa intestinal”, declara.

Elizabeth conta que essa microbiota interage com o hospedeiro de várias formas. Segundo ela, tudo isso altera a microbiota de uma forma bastante direta. “Ela atua na maturação do sistema imunológico, que é bem importante para o processo”, comenta. A professora reforça que em situações como lesão de pata ou peito, alimento mal digerido e produção de gás, não são as formas clássicas da enterite necrótica, mas é como a doença inicia. “Disbiose, desequilíbrio entre a presença desses microrganismos, não necessariamente patogênicos, mas dentro do intestino, pele, trato respiratório e capacidade do animal se defender e regular essa situação. Toda vez que isso começa a acontecer é o princípio para iniciar a enterite necrótica. A forma clássica nem sempre é a forma que pensamos”, afirma.

A professora reitera que é importante que os profissionais que tratam dos animais passem a olhar os números e avaliar todo o processo que envolve a cadeia. “Temos que começar a quantificar, monitorar esses números para solucionar o problema. Temos que começar a ver as alterações que mais ocorrem”, afirma. De acordo com ela, é simples que os médicos veterinários e zootecnistas utilizem a microscopia para auxiliar neste melhoramento, já que é uma técnica relativamente barata. “É preciso que comecemos a utilizar outras tecnologias”, sugere.

Promotores de Crescimento

A professora ainda falou um pouco sobre a utilização dos promotores de crescimento na avicultura. “Hoje temos vários fatos que induzem a pensar que o uso de promotores de crescimento é para controlar inflamação de alguma forma”, comenta. Elizabeth diz que a lesão clínica, que pode ser com gases ou mesmo enterite necrótica, acontece em um animal que não representa o rendimento necessário.

Ela comenta que o uso desenfreado do antibiótico acontece porque os profissionais da área se desvirtuaram. “Por que temos tanto medo de largar o antibiótico?”, questiona. Para ela, quando a dependência pelo antibiótico é muito grande, está faltando atuação do profissional. “É só fazermos o nosso trabalho direitinho”, afirma. Para ela, o profissional precisa trabalhar no processo de integração único “e essa coisa só induz você a pensar antecipadamente”. “Assim, não precisamos ter tanto medo dessa troca, dessa restrição ao uso dos antibióticos”, afirma.

Elizabeth diz que a restrição ao uso dos antibióticos vai mostrar os bons profissionais. “Não precisamos ter medo. É só estudar e aprender mais, mostrar a diferença. E acho que isso vai fazer com que a cadeia produtiva como um todo ganhe, porque você vai ganhar em toda a parte de sustentabilidade, quando você começa a imaginar o controle de matéria prima, bem estar animal e a cadeia como um todo”, diz.

Um lembrete reiterado pela profissional é que os profissionais são agentes de saúde. “Quando estamos produzindo frango, fazendo ração, tudo isso faz parte de um processo de ter alimento de qualidade na nossa mesa. Temos que avaliar a enterite necrótica e todas as doenças como parte desta visão”, evidencia.

Mais informações você encontra na edição de Aves de junho/julho de 2017 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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