Grãos - 15.01.2018

Entusiasta do trigo

Produtor dos Campos Gerais garante que não deixa de produzir nem mesmo por conta dos riscos que a cultura traz consigo

- Giuliano De Luca/OP Rural

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O ano de 2017 não foi bom para o produtor de trigo no Paraná. A seca no plantio e o excesso de chuvas na hora da colheita fizeram o cereal perder qualidade e produtividade. Nos últimos anos, o preço também não tem arrancado sorrisos do agricultor. Mesmo assim, tem gente que defende o trigo a unhas e dentes. Um deles é Bernardo Bouwman, proprietário da Agropecuária Mirella, com sede em Castro, nos Campos Gerais do Paraná. “Não desisto do trigo nunca, mesmo com todos as dificuldades. Produzo trigo há 25 anos e nunca deixei de produzir”, admite o agricultor.

O disposto Bouwman conta que neste ano a cultura sofreu em dois momentos distintos, que afetaram decisivamente a qualidade do grão, interferindo nos resultados finais. “Tivemos uma seca no começo, na hora do plantio, e excesso de água na hora da colheita. Isso reduziu a qualidade do trigo da nossa região para tipo 3, que não serve para panificação, tem baixo valor de mercado. Eu, no entanto, particularmente não tenho muito do que reclamar. Colhi algumas áreas com o tipo 1 e 2, mas também tive trigo tipo 3”, conta o produtor, que cultiva 580 hectares do cereal nos municípios de Tibagi e Castro. Na última safra de inverno, reservou outros 115 hectares para cevada.

Ele conta que sua produtividade na safra de inverno ficou abaixo do esperado, justamente por conta da questão climática. Eu estava esperando colher em torno de cinco mil quilos por hectare. Acabei colhendo 4.112 quilos/ha de média, um pouco abaixo da safra anterior (2016)”, comenta. De acordo com ele, a média de suas áreas gira em torno de 4,6 mil quilos por hectare. Para isso, diz que já colheu até seis mil quilos no melhor talhão.

O excesso de chuva, segundo Bouwman, também aumenta os custos de produção por conta da manutenção da lavoura. “Com o excesso de chuva, geralmente precisamos fazer mais pulverização. Isso aumenta nossos custos. O gasto para cuidar da lavoura é maior”, explica.

Ainda assim, o paranaense, de 52 anos, garante que vai continuar apostando no trigo, muito também por conta de seus benefícios para a safra de soja seguinte. “O trigo é um mal necessário, por assim dizer. Além do lucro, ele é muito importante como rotação de cultura para a soja. Em 2018 vou plantar com certeza”, admite.

Estudo revela medos do triticultor

O clima ruim que acometeu os Campos Gerais em 2017 é o principal receio de produtores de trigo, segundo levantamento da Embrapa com 24 cooperativas que movimentam 34% do cereal produzido no país. A percepção da maioria dos entrevistados é que superar as adversidades do clima, como seca, geadas e chuva na colheita, é o maior desafio à produção de trigo no Brasil. Conforme a Embrapa, em 2017 a produção brasileira de trigo foi de 4,5 milhões toneladas, volume 32% menor em relação ao ano anterior em função de problemas com o clima que afetou os resultados na região Sul, responsável por 90% da produção nacional.

A pesquisa “Avaliação de cenários para a produção de trigo nas cooperativas brasileiras” destaca que as limitações impostas pelos fatores climáticos ao cultivo do trigo foram apontadas pela maioria dos entrevistados como um importante gargalo do setor. As doenças mais temidas são a giberela (87%) e a brusone (51%), cuja incidência está diretamente relacionada ao clima quente e úmido e para as quais ainda não existe resistência genética e os defensivos não apresentam controle satisfatório. “As adversidades do clima são riscos inerentes à triticultura, causando prejuízos que nem sempre encontram fontes de resistência no melhoramento genético das plantas”, argumenta o chefe de Transferência de Tecnologia da Embrapa Trigo, Jorge Lemainski.

Outro problema relacionando ao clima é o risco de germinação pré-colheita, apontado por 86% dos entrevistados. A fase final de maturação do trigo na região Sul, responsável por 90% da produção nacional, muitas vezes atravessa dias com chuvas intensas e altas temperaturas, que podem ocasionar a germinação dos grãos ainda na espiga, diminuindo o potencial de rendimento e a qualidade tecnológica. “Nossa colheita ocorre justamente na primavera, período mais chuvoso do ano. Na Coopavel, contamos com 60 agrônomos monitorando as lavouras durante toda a safra, mas escapar da chuva na colheita não depende apenas da competência técnica, tem sido questão de sorte com clima favorável para o trigo”, argumenta o presidente da Cooperativa Agroindustrial de Cascavel (Coopavel), Dilvo Grolli.

Como os problemas associados ao clima não ocorrem de forma generalizada, implicando danos pontuais em cada região (como seca, geadas, granizos, chuvas, pragas e doenças), o desafio das cooperativas tem sido investir em estruturas de segregação do trigo. Na Coopavel, com sede no município paranaense de Cascavel, a instalação do moinho fez a área de trigo dobrar, passando de 50 mil hectares, em 2012, para 110 mil hectares no ano seguinte. “O moinho trouxe segurança para o produtor, tanto em liquidez quanto em preço. O trigo passou de planta de cobertura para cultura importante”, conta o presidente da cooperativa, Dilvo Grolli. Segundo ele, não existem mais áreas de pousio na região de abrangência da cooperativa, na qual o trigo compõe o sistema de produção com rotação de cinco culturas em dois anos: soja-feijão-trigo-soja-milho safrinha.

Fonte: O Presente Rural

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