Nutrição - 07.05.2018

Do campo ao comedouro, riscos são eliminados com programas de qualidade

Quem segue programas de qualidade consegue elaborar dietas cada vez mais precisas, dedicadas a fases exclusivas e que garantem à ave expressar seu máximo potencial genético

- Arquivo/OP Rural

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A nutrição é o elemento mais custoso para o produtor de aves, respondendo em média por 70% do investimento. Isso todo mundo sabe e fala com frequência. O que pouco se fala é que ela também pode ser altamente prejudicial se todos os critérios para a elaboração de uma dieta de excelência não forem observados. Do plantio do milho, passando pela fábrica, até chegar no comedouro, existem riscos contaminação dessas dietas. No entanto, quem segue programas de qualidade conseguem elaborar dietas cada vez mais precisas, dedicadas a fases exclusivas e que garantem à ave expressar seu máximo potencial genético, com ganho de peso de diário e conversão alimentar cada vez mais afinados.

Para falar sobre a importância de seguir protocolos de segurança e evitar que essas rações que chegam aos aviários brasileiros estejam contaminadas com bactérias, micotoxinas e até Salmonella, o Presente Rural conversou com a médica veterinária Dione Carina Francisco, mestre em Agronegócio e diretora da Agroqualita Consultoria e Capacitação, de Porto Alegre, RS. Para a profissional, produzir boas dietas passa necessariamente pela necessidade de um programa que descreva o passo a passo, seja automatizado e contenha parâmetros de matéria-prima pré estabelecidos.

Na opinião da consultora, tudo começa com a escolha dos fornecedores de matéria-prima, notoriamente o milho e o farejo de soja. “Obter uma boa ração começa com a seleção de fornecedores. De acordo com seus objetivos, a empresa avícola descreve tudo que quer desses fornecedores, como por exemplo o quanto de proteína deve no grão, laudo sobre presença de micotoxinas, laudo sobre a presença de Salmonella, que já está aparecendo no farelo de soja, tudo que pode ter relação com a contaminação da matéria-prima. Essas análises dos fornecedores devem chegar junto com carregamento (na indústria)”, explica Dione. “Em outras palavras, é preciso descrever o que contém o grão de milho e o farelo de soja”, amplia.

De acordo com Dione, a maneira mais fácil de garantir produtos de qualidade é firmando contratos com esses fornecedores, que são classificados de acordo com o desempenho de suas lavouras. “Quanto a gente trabalha o fornecedor a longo prazo, consegue, mesmo em épocas ruins (preço alto), ter garantias. O fornecedor precisa ser parceiro. Muita gente, ao estipular os contratos, tem medo de perder, mas isso não pode acontecer”, aponta.

 “Vários fornecedores de grãos e farelo são categorizados. Existem os muito bons, outros nem tanto. Para esses, é importante que se implante qualidade. A empresa tem o papel também de ajudar a desenvolver o fornecedor. A qualificação dos fornecedores é importante”, assinala a consultora. “Quem não tem programa de qualidade, não pode esperar receber matéria-prima de qualidade”, orienta.

Ela explica que algumas empresas já adotam programas de precisão na nutrição para uma dieta com maior custo/benefício. “Algumas fábricas estão trabalhando com nutrição de precisão. Quanto mais tenho qualidade, tenho um produto final melhor, que vai facilitar mais a vida do avicultor”, cita. “Essas fábricas mais modernas trabalham hoje com alto grau de automação”, amplia.

Em alguns casos mais esporádicos, cita Dione, as cargas que chegam às indústrias estão bastante fora dos parâmetros e chegam a ser devolvidas. “A empresa faz a comunicação para o fornecedor previamente saber o que a empresa quer receber. Há casos em que a qualidade diminui e há um desconto, mas pode acontecer também de mandar de volta à carga”, pontua. Ou seja: se não tem os parâmetros desejados pelas integradoras, não entra na fábrica de ração.

Contaminação cruzada

A contaminação cruzada é um dos grandes gargalos para a produção. Ela é mais difícil ainda porque hoje em dia algumas indústrias produzem cinco diferentes formulações de dietas para uma ave de 42 dias, o que evidencia a necessidade de gerenciamento criterioso nas fábricas. Isso ainda é mais difícil para fábricas que produzem rações para outros animais, como suínos, gado e peixe.

“Há substancias que vão em umas formulações e não em outras, por isso é importante saber a sequência de fabricação, saber o que fabricar primeiro. É preciso fazer uma análise de risco para ter certeza de que determinado produto que não está na formulação da dieta esteja presente na ração final. É preciso estar atento aos momentos para que não fiquem resíduos das rações anteriores nos equipamentos, como antimicrobianos promotores de crescimento”, menciona, sustentando: “Por isso é extremamente importante a limpeza da linha de produção. Dois pontos são importantes: em que momento fazer determinada ração e a limpeza da linha”.

Fábricas dedicadas e competência brasileira

Em fábricas dedicadas, que produzem ração para apenas uma espécie animal, os riscos de contaminação cruzada são menores, explica a consultora. “Quando a fábrica dedicada é muito mais fácil gerenciar os riscos de contaminação cruzada. Se você tem uma linha de suínos e outra de aves, pode acrescentar determinado ingrediente na linha errada por exemplo. Pode acontecer. Esses riscos não existem na fábrica dedicada. Além disso, no próprio estoque se evita essa contaminação, com embalagens rasgadas e mistura de ingredientes”, sugere.

Para a profissional, sejam fábricas dedicadas, sejam fábricas tradicionais, o Brasil está bem desenvolvido nesse sistema de produção de rações. “Estamos bem avançados na produção industrial de ração, seguimos várias instruções normativas, as fábricas passam por auditorias, seguimos vários protocolos de qualidade, talvez dos mais avançados, como a ISO 22000”, destaca. “Algumas estão em processo de implantação (de programas de qualidade), mas de maneira geral estamos sempre avançando. O Brasil não fica devendo em nada para outros países”, evidencia a profissional.

Do caminhão ao bico da ave

A ração saiu prontinha da fábrica, mas os riscos de contaminação continuam. Nesse trajeto até chegar ao comedouro dos animais, Dione cita outros três pontos fundamentais para manter a integridade nutricional e sanitária das dietas: motorista qualificado, limpeza do caminhão de transporte e limpeza dos silos nas propriedades. “Digamos que tudo ocorreu bem e a ração saiu da fábrica sem risco de segurança, mas o caminhão não foi limpo adequadamente. Muito provável pode ter uma contaminação. Por isso, se faz necessária a capacitação de quem está transportando, que precisa saber o que são e como seguir as boas práticas de fabricação (BPF)”, expõe. Muitas vezes esse serviço é terceirizado, por isso é importante que sigam os protocolos sobre quando e como fazer a higienização dos caminhões e gerenciar o transporte - o que ele não pode transportar antes para não ter contaminação”, acrescenta.

No silo que faz distribuir a ração para os galpões é a mesma coisa. Limpeza e ordem dos tipos de dietas. “Quando chega na granja é preciso ter muito cuidado com os silos. A higienização deve ser feita sempre e deve haver mais de um silo para diferenças de fase do crescimento da ave”, frisa, exemplificando que “substâncias na fase de crescimento não são encontradas na ração da fase final”.

A consultora explica que existem muitos produtos em desenvolvimento para serem acrescentados nas dietas, especialmente por conta do restrição ao uso de antibióticos como promotores de crescimento. “Tem muita coisa sendo desenvolvida, como prebióticos e probióticos, entre outros produtos, muito pela necessidade de reduzir a ingestão de antimicrobianos”, destaca.

Dione Francisco explica, no entanto, que de nada adianta ter uma ração de alta qualidade se outros passos da avicultura de sucesso não forem seguidos. “A nutrição é extremamente importante, mas só vai funcionar bem com manejo adequado, boa sanidade, ambiência e bem-estar animal. A nutrição é um importante ponto, mas não dá para falar só dela. O resultado final dela depende desses outros pontos”, situa.

Mais informações você encontra na edição de Aves de abril/maio de 2018 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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