Especialista faz as contas - 03.09.2018

Cruzamento industrial pode render R$ 1,5 mil a mais por matriz

Alexandre Zadra, zootecnista e especialista em cruzamento industrial, decifra um pouco mais do mundo bovino, indicando ao homem do campo caminhos que ele pode encontrar para ter o rebanho ideal para sua fazenda

- Divulgação

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Manter o rebanho puro? Fazer cruzamento industrial? Com raças taurinas ou europeias? Calma! Alexandre Zadra, zootecnista e especialista em cruzamento industrial, decifra um pouco mais do mundo bovino, indicando ao homem do campo caminhos que ele pode encontrar para ter o rebanho ideal para sua fazenda. Ele fez as contas. Em um rebanho com mil matrizes na pecuária de corte, o incremento na renda é de quase R$ 150 mil por ano, ou R$ 1,5 mil por matriz. A reportagem é exclusiva do jornal O Presente Rural. Boa leitura.

O Presente Rural (OP Rural) - Explique um pouco sobre raças taurinas e europeias?

Alexandre Zadra (AZ) - As raças bovinas foram classificadas em "com cupim" e "sem cupim". Todas as raças sem cupim são Bos taurus. Todas as raças que evoluíram nas regiões de clima temperado, tais como Angus e Simental, são Bos taurus. As raças Crioulas das Américas, tais como o Caracu e o Romosinuano, e muitas das raças da África Ocidental, tais como o N'Dama e o Muturu, são também raças taurinas.

Há dois grupos de raça com cupim, aquelas com o cupim torácico (o Zebu ou raças Bos Indicus) e aquelas com o cupim cérvico-torácico. As raças zebuínas incluem o Boran (Zebu africano), Brahman (composto de raças Zebuínas Indianas) e o Nelore. Elas têm um cromossomo "Y" tipicamente indiano. As raças de cupim cérvico-torácico incluem as raças africanas Sanga, tais como o Africânder e o Tuli, e raças compostas que foram recentemente sintetizadas através de cruzas entre raças indianas e taurinas (raças indu-taurinas ou tauríndicus) tais como Brangus e Simbrah.

Em geral, as raças Sanga que se originaram ao sul do rio Zambezi (tais como o Africânder e o Tuli) são classificadas como Bos taurus. Elas têm um cromossomo "Y" tipicamente Bos taurus. A maioria das raças Sanga do norte do rio Zambezi são misturas das raças taurinas africanas originais e Zebus indianos que foram trazidos para a África nos últimos 2000 a 3000 anos.

Elas podem ter um cromossomo "Y" tanto de origem taurina como indiana. Todas as raças têm em comum um ancestral Bos, o Bos Primogenius. As divergências entre os tipos taurinos e indianos começaram aproximadamente há 1,5 milhão de anos, enquanto a diferenciação entre as raças europeias e as taurinas africanas parecem ter começado há 10.000-20.000 anos atrás.

As divergências entre as raças do oeste africano e as raças taurinas do leste africano devem também ter ocorrido há vários milhares de anos atrás. Por outro lado, as raças europeias estão separadas por centenas de anos. Bem como as raças indianas entre si. As raças crioulas estiveram separadas das raças europeias por pelo menos centenas de anos. Os dois principais grupos de raças europeias usadas para produção comercial de carne são aqueles britânicos (ex.: Angus e Shorthorn), e aquelas da Europa Continental (ex.: Charolês e Simental). Fora da África, as raças Zebu usadas para produção comercial de carne são de origem indiana (ex.: Brahman e Nelore). 

OP Rural - O que é cruzamento industrial e quando é indicado?

AZ - O cruzamento entre indivíduos de raças diferentes, onde o touro é de raça definida, buscando aumentar a eficiência na produção de carne.

A razão principal para se fazer o cruzamento orientado entre raças é aumentar a lucratividade (renda líquida), através do aumento da produtividade (eficiência de produção). Nenhuma raça é perfeita. Cada uma tem seus pontos fortes e fracos. O animal produto do cruzamento deverá combinar o elevado potencial de produção da raça de clima temperado com a adaptação da raça tropical.

Escolhendo-se as raças apropriadas para o cruzamento, o potencial de produção e a adaptação tropical dos animais cruzados podem ser combinados ao seu ambiente - quanto mais complementares forem as raças, maior é a produtividade, e, consequentemente, maior a lucratividade. O cruzamento entre raças ou heterozigose busca gerar heterose, ou vigor híbrido, para um grupo de características comercialmente importantes, particularmente de reprodução e sobrevivência. A heterozigose dá um ganho gratuito adicional que permite que a produtividade dos cruzados exceda a produtividade de ambas as raças-base.

Tanto no corte quanto no leite buscamos com o cruzamento entre raças aliar a alta produção das raças europeias com a rusticidade e adaptabilidade ao clima das raças zebuínas e adaptadas.

OP Rural - Quando é interessante manter raças puras?

AZ - Quando se busca ganho genético através da seleção dos melhores indivíduos dentro de cada raça. 

OP Rural - Quais os benefícios do cruzamento industrial?

AZ - Complementaridade – A combinação das qualidades desejáveis das raças parentais permite a obtenção de uma progênie superior. Ou seja, quanto mais as raças utilizadas se complementarem nas características produtivas, melhor será o resultado dos produtos do cruzamento. O exemplo mais claro disso é combinar características de adaptabilidade, ou seja, aproveitaremos a resistência e fertilidade das vacas zebu, e o ganho de peso, precocidade sexual e de acabamento das raças taurinas europeias. Lembre-se, portanto: estude cuidadosamente as características produtivas de cada raça antes de tomar qualquer decisão.

Flexibilidade – No cruzamento, podemos facilmente redirecionar nosso sistema de produção, oferecendo o produto exigido pelo mercado. Exemplo. Se o mercado compra carcaças acima de 270 kg, o produtor obterá isso fazendo cruzamento com raças europeias de grande porte.

Heterose -  É a superioridade média dos produtos de cruzamento em relação à média dos pais. A heterose será maior quanto maior for a distância evolutiva entre as raças em questão, ou seja, quanto tempo atrás elas se distanciaram no processo de seleção natural e seleção induzida pelo homem.

Os efeitos da heterose são maiores nas características de baixa herdabilidade, ou seja, nas características muito influenciadas pelo meio ambiente e, por consequência, as que menos respondem ao processo de seleção. São elas: fertilidade e sobrevivência.

O período de separação mais longo ocorreu entre as raças Zebuínas e Taurinas. Por isso, a heterose é maior em cruzamentos taurus x indicus. Entretanto, em ambientes de estresse tropical, a heterose se expressa inteiramente quando o animal cruzado for totalmente adaptado ao ambiente tropical. Para maximizar os benefícios do cruzamento, a sequência em que as diferentes raças são cruzadas deve ser tal que não apenas a heterose é maximizada, mas a adaptação também é mantida. Tão importante quanto a heterose para maximizar a produtividade, são os atributos das raças para determinar as características do cruzamento.

OP Rural - Quais os desafios para raças europeias e zebuínas?

AZ - O clima tropical é o maior desafio para as raças europeias e a alta produtividade é o maior desafio para as raças zebuínas.

OP Rural - Quais os principais índices zootécnicos que precisam ser levados em consideração na hora de escolher uma raça para reprodução?

AZ - Ganho em peso, características de carcaça, precocidade de acabamento, eficiência alimentar, habilidade materna, precocidade sexual.

OP Rural - Existe um touro certo para cada vaca?

AZ - Sabemos que a diferença existente entre indivíduos dentro da mesma raça é maior que a diferença entre raças, portanto, sabemos que devemos escolher com muito critério os indivíduos usados no cruzamento ou para uso no gado puro. Falamos em acasalamento individual somente nos casos de gado puro. Podemos então considerar que existe um indivíduo para cada vaca nesse caso.

OP Rural - Como encontrar a vaca ideal pensando nos índices reprodutivos?

AZ - A vaca ideal é adaptada ao clima de sua região, deve parir com no máximo 24 meses de idade, devendo produzir um bezerro por ano que pese pelo menos 45% do peso dela.

OP Rural - Como encontrar o touro ideal pensando nesses índices?

AZ - O touro ideal tem valor genético (DEP – Diferença Esperada na Progênie) positivo para as características produtivas escolhidas.

OP Rural - Quanto o investimento em genética custa e quanto pode contribuir para o resultado financeiro da fazenda?

Vamos considerar um rebanho com 1000 matrizes

  • Nº de Matrizes – 1.000 Zebuínas
  • Produção de 400 machos/ano
  • Custo mensal do animal adulto no pasto (Aluguel de pasto + vacinas + sal + M.O.) – R$ 35,00
  • Bovinos consomem em média 2 meses de pasto para ganhar 1 @ de peso.
  • Zebu – abate aos 34 meses com peso ideal de 16,5@.
  • Produto de cruzamento – abate aos 28 meses com peso ideal de 18@.

A partir desses dados, temos:

  • O Produto de Cruzamento pesa 1,5 @ a mais que o Zebu ao abate, saindo 8 meses antes.
  • Para o Produto de Cruzamento ganhar 1,5@ extra, consome o equivalente a 3 meses a mais de pasto.
  • Haverá então 5 meses de vantagem para o produto de cruzamento.

Conclusão com os machos

  • – R$ 35,00/custo mensal x 5 meses de economia – R$ 175,00 de economia/boi de cruzamento x 400 bois = R$ 70.000,00 + lucro de 1,5@ de diferença peso ao abate/boi x R$ 130,00 (Preço da @) x 400 bois = R$ 78.000,00

Total – R$ 148.000,00 de lucro para cada 1000 matrizes em reprodução sem contar o lucro da ½ sangue.

OP Rural - Quais são os parâmetros considerados ideais na reprodução?

AZ – Oitenta porcento de bezerros desmamados, 2% de mortalidade, peso a desmama de 240 kg para machos, peso e idade ao abate de 500 kg aos 24 meses, prenhes das fêmeas aos 14 meses de idade. 

OP Rural - Quais são os parâmetros médios do Brasil?

AZ - Bezerros desmamados (50%), mortalidade (5%), peso a desmama (170 kg para machos), peso e idade ao abate (500 kg aos 36 meses), prenhes das fêmeas aos 26 meses de idade.

OP Rural - Como melhorar a reprodução usando a genética?

AZ - Fazendo cruzamento entre raças, pois com a heterose melhoramos muito a taxa de fertilidade e precocidade sexual das fêmeas.

Mais informações você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de agosto/setembro de 2018 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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