Manejo - 11.12.2017

Criação de suínos em família elimina uso de antibióticos

Alternativa baseada em case de sucesso da Embrapa, porém, é mais viável para pequenos produtores. Estudo que levou cinco anos para ser concluído foi apresentado durante Abraves

- Divulgação/Nelson Morés

Em todos os ciclos da vida, os leitões da mesma leitegada vão passar o tempo juntos. Do momento em que nascem até o carregamento para o abate, esses animais não são misturados com outros lotes. Isso pode gerar aspectos bastante positivos para o sistema produtivo, incluindo o fim do uso de antibióticos de maneira preventiva. O sistema, proposto pela Embrapa Suínos e Aves, é uma maneira de evitar o uso abusivo desses medicamentos nos sistemas de produção, indo de encontro à tendência mundial de racionalização no uso de antimicrobianos na produção animal.

Trata-se de uma alternativa para produtores que pretendem alcançar esse nicho de mercado - ainda pouco explorado - que surge com o novo modelo de compra do consumidor, que prioriza alimentos mais saudáveis, seguros e sustentáveis. No entanto, o modelo exige certas mudanças do modelo convencional, como fim da mistura de lotes, do corte de cauda e do desgaste de dentes, e pode custar mais, com idade não inferior a 28 dias de desmame e enriquecimento nutricional nas rações.

De acordo com os autores da pesquisa, “o estudo avalia que o sistema de produção de suínos em família sem uso de antimicrobianos preventivo de doenças, independente do sistema de produção utilizado, é eficiente tanto em desempenho produtivo quanto na ocorrência de problemas sanitários, com resultados comparáveis às metas estabelecidas para suinocultura industrializada e índices relatados em outros estudos brasileiros”.

“Nosso caso foi estudado durante cinco anos, em uma granja de ciclo completo com 21 porcas. Fizemos um sistema com baixa densidade, melhoramos a biosseguridade, e tivemos ausência de mistura de leitões de diferentes leitegadas do nascimento ao abate. O desmame feito aos 28 dias. No dia 63, os animais iam para o crescimento e terminação e aos 123 dias eram abatidos”, explica um dos autores do estudo, Gustavo Julio Mello Monteiro de Lima. “Tivemos a rastreabilidade de cada animal. Se medicado, era por vacina. Na nutrição incluímos altos níveis de plasma, usamos os procedimentos operacionais básicos, sem corte de cauda, sem desgaste de dente”, pontua.

Nutrição

O farelo de soja, segundo maior composto em muitas rações, é um grande vilão para a digestibilidade do animal e deve ser drasticamente reduzido nesse e em outros sistemas de produção suinícola, na opinião Lima. O pesquisador defende uma redução violenta dos níveis do farelo de soja. Eu odeio soja, não como, minha mulher não come, minha mãe não comia”, brincou, defendendo mais inerais e menos proteína bruta nas rações. Dietas devem ser formuladas com base em ingredientes digestíveis. “O farelo de soja é rico em ingredientes que prejudicam a digestão e favorecem a fermentação. É preciso baixar a proteína e colocar aminoácidos. Esse detalhe tem que ser mais observado”, apontou.

Como alternativa, ele cita a inserção de Ferro, Cobre e Zinco nas dietas. “As dietas se tornam 5% mais caras, mas já estamos trabalhando para ter uma dieta 5% mais barata (que a convencional).  Ele destacou a importância de Zinco e Cobre, mas frisou a necessidade de dosar esses elementos com eficiência para não intoxicar os animais e gerar resistência antimicrobiana. “Íons metálicos (encontrados nos elementos) são essenciais para a sobrevivência dos microrganismos no meio ambiente ou no hospedeiro. Toda bactéria precisa desses minerais, pois participam de processos biológicos como componentes de metaloproteínas e servem como cofatores ou elementos estruturais para as enzimas. Zinco e Cobre possuem mais eficácia do que probióticos, prebióticos, ácidos orgânicos - que também podem ser acrescentados -, mas o Zinco é metal pesado e tóxico, além de a maior parte ser eliminada nas fezes, causando poluição ambiental e da água. Ou seja: é preciso controlar as doses e o tempo de exposição. Altas concentrações de Zinco podem acarretar resistência antimicrobiana e podem regular a expressão de genes que modificam a resposta imune dos animais. Zinco e Cobre em altas concentrações, por período longo, podem promover a propagação de resistência antimicrobiana da microbiota. O uso prolongado de metais pesados oferece uma pressão seletiva sobre bactérias resistentes e antimicrobianos e essa é uma razão pela qual o uso de altas doses destes metais pode desempenhar pape na manutenção da resistência”, pontua.

O pesquisador ainda destacou o ferro como um bom mineral que não tem a devida atenção do produtor e técnicos. “A quantidade de ferro no interior da célula é cuidadosamente regulada. O Ferro na luz intestinal é imprescindível para o crescimento de bactérias, portanto não é desejável que haja falta e muito menos excesso na dieta. Mesmo assim, ninguém dá bola para o Ferro”, provocou, lembrando que anemia por deficiência de ferro é comum em humanos lactantes. Ele reforçou, também, que é preciso mensurar doses para não prejudicar o rebanho.

Lima ainda falou que o excesso de cálcio é “um dos grandes ‘problemas’ que temos em nutrição’”. “É barato, mas pode amentar o pH intestinal, favorecendo o crescimento de bactérias indesejadas, além de afetar a absorção de outros minerais, como o próprio Zinco”. Em sua palestra, para um dado preocupante: “cerca de 30% das dietas de leitões estão com níveis de cálcio acima do recomendado”.

Algumas Alternativas

O estudioso aponta que existem diversas alternativas interessantes para auxiliar no processo de restrição ao uso de antimicrobianos melhoradores de desempenho, como “melhorar condições de biosseguridade reduzindo entrada de patógenos, idade ao desmame de 28 dias, redução da mistura de animais e lotes, produção de lotes enfatizando a limpeza, desinfecção e vazio sanitários das instalações, melhorar o ambiente das instalações, usar de acidificantes na dieta e na água, reduzir a densidade, reduzir o farelo de soja e aumentar a inclusão de ingredientes de alta digestibilidade, usar aditivos alimentares que melhorem a saúde intestinal, formular dietas evitando grandes quantidades de nitrogênio, cálcio e ferro, utilizar fontes alternativas de Cobre e Zinco e outras formas inorgânicas”.

Família Saudável

Apesar dos fatores nutricionais, de acordo com o estudo, “os bons resultados de desempenho e de saúde obtidos com os suínos criados no modelo de família, mesmo sem o uso de antimicrobianos preventivos, são atribuídos, principalmente à manutenção dos leitões na mesma leitegada do nascimento até o abate, à baixa escala de produção e à redução de fatores de risco que exacerbam a ocorrência de doenças”. Os benefícios de suínos alojados em família, sem mistura com outras leitegadas, incluem um bom nível de bem-estar, com redução do estresse e diminuição na transmissão horizontal de agentes infecciosos.

Em 2008, um autor usado para embasar o estudo da Embrapa já havia provado que leitões da mesma leitegada quando mantidos juntos do nascimento ao abate desenvolvem melhor e apresentam melhor saúde respiratória do que quando são misturados, especialmente no desmame e no crescimento. Quando leitões são misturados, há efeitos negativos indutores de estresse e consequências sobre a saúde dos animais.

Baixa Escala

De acordo com o estudo da Embrapa, “considerando que o sistema de produção de suínos em família, sem uso de antimicrobianos de forma coletiva, somente pode ser utilizado em sistemas produtivos em baixa escala e privilegia o bem-estar animal e a qualidade das carcaças, características estas importantes para fabricação de produtos diferenciados com maior valor agregado, é uma alternativa importante para viabilizar pequenos produtores”. De acordo com Lima e outros autores, “embora a granja em que o estudo foi realizado era com apenas 21 matrizes em ciclo completo, acreditamos que se os princípios do sistema forem respeitados (produção em família, sem mistura de leitões, boa nutrição, higiene e manejo adequados e um bom programa de vacinação), é provável que rebanhos com até 60 matrizes poderão funcionar bem sem o uso de antimicrobianos preventivos”. Na palestra, Lima disse que não seria impossível atingir cem matrizes.

Nesse sentido, segundo os estudiosos, grupos de produtores podiam envidar esforços e formar parcerias com agroindústrias ou cooperativas familiares para produção e comercialização de carne ou produtos de suínos diferenciados daqueles produzidos em larga escala e com valor agregado para atender nichos de mercado.

Rastreabilidade Individual

Conforme Lima e outros sete autores, os tradicionais modelos de produção fazem a rastreabilidade apenas por lote produzido, pois os suínos não são identificados individualmente. “O sistema de produção em família permite fazer a rastreabilidade individual, uma vez que todos eles são identificados individualmente. Então, suínos que ocasionalmente forem medicados individualmente durante o processo produtivo podem ser identificados, e no abate poderão ser excluídos da linha de produtos com maior valor agregado”, orienta.

Para Lima, no entanto, há uma dificuldade em pequenos produtores chamarem o interesse da indústria e esse sistema demandaria investimentos, como adequações em estruturas existentes, especialmente para atender o modelo de produção em família, com baias para alojar apenas uma leitegada, além de reeducação profissional dos produtores. “O problema é que na maioria das vezes produtores pequenos de ciclo completo não interessam às agroindústrias e, portanto, não recebem treinamento adequado de forma continuada, como ocorre com a maioria dos produtores integrados. Então, a adoção desse sistema certamente demandará apoio por parte da assistência técnica (privada ou pública) para treinar os produtores nesse modelo”, aponta a pesquisa.

O pesquisador entende que “os resultados do projeto devem servir de subsídio para o desenvolvimento de sistemas de produção de pequena escala voltados para mercados de maior valor agregado. Para tanto, é fundamental que uma futura estratégia de difusão deste processo produtivo envolva outros atores da cadeia produtiva da carne suína, notadamente, empresas e cooperativas agroindustriais, redes de varejo e organizações voltadas à certificação e à rastreabilidade”.

Além disso, opinam os pesquisadores, “os conceitos propostos e validados pelo projeto também devem ser vistos como valiosos subsídios a serem incorporados pelos sistemas de produção predominantes (média/grande escala e produção segregada) a fim de buscar um melhor posicionamento no novo padrão concorrencial que está se estabelecendo nos mercados internacionais mais exigentes, à luz do que vêm fazendo países como a Dinamarca e os Países Baixos”.

Mais informações você encontra na edição de Nutrição e Saúde Animal de novembro/dezembro de 2017 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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