Qualidade - 04.12.2017

Correção das dietas é feita com avaliação do leite

Melhores índices de gordura e proteína e aumento na quantidade de leite são alguns dos benefícios de uma deita correta e balanceada em rebanhos leiteiros

- Arquivo/OP Rural

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Uma boa produção leiteira depende muito de manejo, sanidade e, principalmente, nutrição. Uma boa alimentação faz a diferença nos resultados finais que o produtor terá na produção. E o que os resultados também estão mostrando pode ser um indicativo do que falta ou sobra na nutrição. Para explicar um pouco esta correlação, o professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), doutor Rodrigo Almeida, falou durante o sétimo Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite que aconteceu em Chapecó, SC, em novembro, sobre o “Uso de análise do leite como ferramenta de avaliação nutricional em rebanhos leiteiros”.

O professor explica que quando se fala em análise de leite, deixando de lado a CCS, o que se pensa é em conotação, impacto nutricional e tudo isso muito restrito à gordura e proteína. “O leite pode nos passar muito mais informações do que somente estes dois itens”, informa. “Há 40 anos falávamos de gordura, proteína, lactose e CCS, depois foi incorporado a ureia e ácido cítrico. Então surgiram os ácidos graxos livres, caseína, pH, cetose, indicativos de adulteração do leite. Mais recentemente também a possibilidade de fazer a contagem de células somáticas diferencial, isolando inclusive a quantidade de leucócitos. Tudo isso informado pelo leite”, explica.

Para Almeida, é preciso reconhecer que uma das razões mais frequentes de um nutricionista ser chamado a um rebanho leiteiro é, à primeira vista, que o leite está aquém das expectativas. “Mas, talvez uma segunda razão mais frequente para o nutricionista ser chamado é porque a gordura do leite está baixa ou caiu”, diz. Ele acrescenta que é importante que todo técnico que se propõe a trabalhar com nutrição precisa reconhecer qual é a origem da depressão da gordura do leite. Esta queda pode ser explicada, segundo Almeida, pela queda do pH ruminal. “Se o animal tem um rumem saudável as gorduras insaturadas que a gente coloca na dieta são biohidrogenadas, com ácidos graxos saturados, sem nenhum problema”, diz. “Todo nutricionista sabe que mesmo não incluindo ingredientes na dieta é normal ter, em termos basais, 3% de extrato etéreo. Uma vaca ingerindo 22 quilos, estamos falando de 650 a 700 gramas de gordura que uma vaca ingere mesmo você não incluindo ingredientes empíricos”, conta. Ele informa que se colocar gordura protegida, a ingestão vai para um quilo. “Grande parte é de gordura insaturada, que é transformada em saturada no rumem”, diz.

Alerta

Almeida alerta que os nutricionistas precisam se preocupar também com o nível de fibra efetiva. “Essa preocupação de grãos inteiros é coisa de gado de corte, gado de leite, ainda mais no sistema que bonifica sólidos, tem que ter uma fibra de qualidade. Se colocar qualquer fibra, a gente vai ter menos consumo e com isso menos leite”, conta. Ele acrescenta que quando existe meta de fibra efetiva não se pode pecar nem pela falta e nem pelo excesso, pois “o excesso da fibra também não é bom”. “Temos que limitar o consumo e, ao limitar o consumo, limitamos também a produção”, esclarece.

Almeida comenta que em muitos rebanhos é visto que a gordura do leite está abaixo porque falta fibra, principalmente fibra efetiva. “Alguns rebanhos que têm gordura baixa porque há uma ingestão demasiadamente alta de óleo saturado, principalmente óleo de soja. Outros estão trabalhando com isso demasiadamente alto; outros rebanhos ainda estão trabalhando com enzimas demais, ou está falando manejo. Mas há muitas situações reais e práticas que há mais de um fator ocorrendo ao mesmo tempo”, descreve.

Para o professor é muito comum haver cenários de falta de fibra e excesso de amido. “Para o nutricionista atacar o problema de pressão de gordura do leite, ele tem que reconhecer qual é a principal causa para começar a contornar o problema”, comenta. Almeida reitera que quando o teor de gordura está baixo, é preciso checar os níveis de fibra efetiva. “Deve checar ainda se os níveis de amidos estão altos, porque hoje na pecuária leiteira, principalmente do Sul do país, é muito difícil a gente pecar por falta de amido; é mais comum pecar pelo excesso”, diz.

Proteína

A proteína, também importante componente do leite, tem uma variabilidade intermediária. “Ela varia menos do que a gordura e mais do que a lactose. É composta basicamente por 94% de proteína verdadeira e 7% de compostos nitrogenados proteicos”, explica Almeida. Ele diz que geralmente quando o teor de proteína do leite está baixo é porque o teor de amido está abaixo do indicado, falta carboidrato, que é o combustível para que mais síntese proteica ocorra no rumem no animal. “Essas são fontes que a gente normalmente usa. Silagem de milho com bastante grãos, sorgo melhor possível, ou até mesmo um milho floculado”, sugere.

O professor ainda fala sobre os valores dietético ideais. Para ele é de 23 a 27% de matéria seca. “Mais uma vez da mesma forma que a fibra, o amido demais e de menos causa problemas. A gente tem que trabalhar numa faixa média que na minha sugestão é de 26 a 27%. Se os valores estiverem aquém de 23% simplesmente o leite não vem. O amido segura o leite”, conta. Já o pouco amido diminui a síntese de proteína do rumem. “A síntese de proteína microbiana no rumem é a grande contribuidora do tubo de proteína, que vai basicamente formar a proteína do leite” diz.

Outro alerta feito pelo professor é que é preciso atenção em fatores nutricionais que levantam a gordura do leite e pioram a proteína. “Percebam que nutricionalmente melhorar a gordura e proteína ao mesmo tempo não é uma tarefa fácil, é desafiadora. Mas nós estamos percebendo que é preciso encontrar um meio termo”, diz.

Ele comenta que se os níveis de amido estão muito altos, quais as possiblidades para que não haja perda de produção, mas ainda assim ter um ambiente ruminal mais saudável: caroço de algodão, resíduo de cevada e casca de soja são algumas alternativas. “Essa última tem uma péssima efetividade, não é fonte de fibra efetiva, muito pelo contrário. Mas quando erramos no amido, por efeito de substituição, ela pode tornar a dieta menos rica em amido, e melhorar assim a gordura. Mas ela não traz efetividade na dieta”, informa.

Nitrogênio ureico no leite

O professor comenta que a ideia da ureia no leite é um sinal de sincronismo entre energia - açúcar, amido e fibra - e nitrogênio, seja na forma de nitrogênio proteico, aminoácidos essenciais ou algum outro. “No quesito de proteína ou eficiência no aproveitamento do nitrogênio, infelizmente a vaca leiteira não é tão eficiente quando gostaríamos. Percebemos que o total de nitrogênio consumido pela vaca, somente de 25 a 35% é agregado ao leite em forma de proteína, o restante dos 70% ou mais é excretado”, informa.

Almeida explica que quando se trabalha com níveis de proteínas altos, que resultam em valores de leite altos, além da ureia do leite subir, essa proporção vai subir exageradamente. “Esse é o impacto ambiental de uma vaca não alimentada de acordo com os preceitos da nutrição de precisão. Nós, às vezes, para garantir a consultoria, para garantir uma não queda do leite, subfornecemos proteína como margem de segurança, mas, com isso, estamos cometendo um pecado econômico, reprodutivo e ambiental”, alerta. A recomendação do professor é monitorar o leite e trabalhar com valores ideais de 10 a 14 mm por decilitro.

Outro ponto destacado é que quando a proteína está baixa e a ureia do leite não, pode então ser um problema de falta de proteína na dieta do animal. Já quando o teor de proteína no leite está baixo, mas o NUL (nitrogênio ureico no leite) está bom, provavelmente é falta de amido na dieta. “Com o uso dos dois indicadores você pode tentar isolar qual efeito é responsável pelo baixo teor de proteína do leite”, conta. Ele acrescenta que geralmente quando se adotam práticas de dieta, manejo e alimentação do rebanho para levantar o leite o teor de proteína vem junto. “Mas, as práticas que você adotou para levantar o leite e o teor de proteína normalmente culminam com a queda da gordura. São raras as práticas que melhoram os três índices ao mesmo tempo: quilos de leite, teor de gordura e de proteína. Mas existem”, conta.

Uma estratégia sugerida pelo professor é distribuir o fornecimento de grãos ao longo do dia. “Fornecer uma dieta total é uma prática para melhorar os três índices ao mesmo tempo. Mas, fora essas poucas exceções, as práticas que geralmente são adotadas para levantar o leite e a proteína acabam resultado na piora da gordura e vice-versa”, alerta.

Mais informações você encontra na edição de Nutrição e Saúde Animal de novembro/dezembro de 2017 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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