- 28.12.2017

Conhecimento e tecnologia transformaram professora primária na Rainha da Soja

Referência em produtividade, Cecília Falavigna é exemplo quando o assunto é utilização de alta tecnologia na propriedade
Cecília Falavigna, conhecida como a Rainha da Soja, tem uma produção de excelência: segredo é investir em conhecimento e tecnologias disponíveis

Cecília Falavigna, conhecida como a Rainha da Soja, tem uma produção de excelência: segredo é investir em conhecimento e tecnologias disponíveis - Francine Trento/OP Rural

Alta produtividade, sucesso e determinação. Estas são três palavras-chave quando a conversa é com a produtora Cecília Falavigna, de Floraí, PR, a Rainha da Soja. A reportagem de O Presente Rural conversou com a produtora, que não leva o título não à toa: Cecília é bicampeã de produtividade de soja no concurso organizado anualmente pela Cocamar, cooperativa da qual faz parte, e bicampeã no concurso de produtividade promovido pela Syngenta na região Sul do Brasil.

Cecília entrou no mundo do agronegócio como tantas outras mulheres: há 20 anos, após ficar viúva, se viu com duas propriedades rurais, herdadas do marido, para cuidar. Mesmo com três filhos pequenos em casa, a então professora de escola fundamental imergiu neste mundo até então totalmente desconhecido. “Logo no início eu não sabia o que era um alqueire de terra, não sabia o que significava arrendamento”, lembra. Na época, a produtora conta que foram muitos os conselhos que recebeu deixar que outros plantassem em suas terras, mas não cedeu. “Eu disse precisamente que não (arrendaria). Como faria algo com as minhas propriedades que eu nem sabia o que significava?”, conta.

Para conseguir tocar os negócios que até então eram conduzidos somente pelo marido, Cecília buscou apoio onde mais sentiu confiança: uma cooperativa. “Lá, fui recebida por dois funcionários que me explicaram exatamente o que era uma cooperativa, quais os conceitos e deveres, e passaram a me auxiliar a tomar conta das propriedades”, recorda. Depois disso, Cecília diz que passou a participar das palestras, capacitações e dias de campo feitos pela cooperativa. “A partir dali eu sabia que estava sendo bem acolhida e poderia trabalhar”, recorda.

Pouco tempo depois, a produtora passou a modernizar o parque de máquinas da propriedade, além de investir pesado no uso das tecnologias para aumentar a produtividade da fazenda. “Os funcionários que estavam na fazenda já sabiam como o trabalho funcionava, então somente o que eu fiz foi levar as novidades que haviam no mercado para eles”, diz. De acordo com Cecília, no início os funcionários não estavam habituados a trabalhar com estas inovações. “Estavam todos em uma zona de conforto, e no início foi complicado para saírem dessa zona de conforto. Mas agora eles estão muito mais receptivos e companheiros para mudar. Até porque, há incentivo, já que se eu tenho uma boa produção, eles também ganham mais, pois trabalho com porcentagem”, explica.

Cooperativa

Como não entendia muito sobre a forma de administrar a propriedade, foi em uma cooperativa que Cecília teve auxílio. Ela comenta que este foi e ainda é um diferencial fundamental para as atividades que ela realiza. “A cooperativa investe muito no produtor, ela procura te dar todo o respaldo necessário, em tudo aquilo que há necessidade”, comenta. Além do mais, a entidade ainda capacita os associados em forma cursos, palestras e dias de campo, afirma a produtora. “Eu não me vejo produzindo sem a cooperativa, porque eu compro todo o material que eu preciso lá e também quando colho entrego tudo lá. Na hora da venda pode ser um pouco mais complicado, porque você quer sempre um preço bom, mas os técnicos também te auxiliam com isso”, destaca.

Rainha da Soja

E as altas produtividades que Cecília tem na propriedade, de acordo com ela, são resultado das tecnologias que constantemente são aplicadas. “Logo no início, quando eu peguei a fazenda para cuidar, não sabia qual era a média de produção”, recorda. Porém, com o passar do tempo a produtora foi acompanhando e viu a média disparar de 105 para quase 200 sacas de soja por alqueire. “A cada ano que passava nós aumentávamos a produção da soja. Claro que houve épocas em que diminuía um pouco por conta do clima, mas sempre foi uma produção crescente”, afirma.

E os bons números eram resultados dos cuidados que a produtora tinha na propriedade. “Tudo o que aparecia de bom em relação a soja nós estávamos aplicando. Claro que com toda a mudança muitos funcionários ficavam desconfortáveis. Mas é preciso mudar, adotar novas tecnologias e se atualizar sempre. E como eu sempre fui muito curiosa, o que era novidade eu levava para a propriedade”, conta.

Cecília lembra que entrar no concurso da Cocamar para concorrer entre as maiores produtividades foi por experiência. “Ficamos quatro anos fazendo experimentos, e a cada ano que passava colhíamos um pouco mais. Então houve um ano em que eu fiz a proposta de que queria colher 200 sacas por alqueire. No primeiro ano chegamos a 195 sacas, no outro ano um pouco mais, e eu me perguntei o que estava faltando para chegarmos ao número que eu desejava”, conta. Ela informa que a cada ano foram melhorando a produtividade, utilizando para isso tecnologias, sementes geneticamente melhores e adubos especializados.

A produtora revela que para participar do concurso, assim como todos os outros participantes, reservou quatro alqueires de sua propriedade. “No primeiro ano em que ganhei eu colhi 105 sacas de soja por alqueire. Já no segundo ano foram 225 sacas”, informa. Cecília conta que neste ano ela não foi a vencedora do prêmio, brincando com as “adversárias”. “Deixei para outra pessoa ganhar, porque não pode ser sempre eu. Não posso ser egoísta”, brinca. Porém, destaca que mesmo não ganhando o concurso neste ano, o título de Rainha da Soja ainda é seu. “O ganhador deste ano colheu 223 sacas, eu quando ganhei foram 225. Então, o meu ainda é maior”, orgulha-se.

Os bons resultados não veem por sorte, afirma Cecília. “Não é somente comprar uma semente boa e colocar na terra. É preciso ver como este solo está, fazer análise, ver qual a necessidade ali”, diz. Hoje, a produtora planta 230 alqueires de terra, porém ressalta que para o concurso são somente quatro alqueires destinados. “Mas, do que experimento neste pedaço, posso ver o que dá certo e dar continuidade em toda a propriedade”, diz.

Mulheres do Campo

Cecília afirma que após receber as premiações, alguns agricultores começaram a ficar curiosos sobre a forma com que ela lida com a lavoura. “Muitos produtores vieram até a propriedade ver o que eu estava fazendo. Ainda existem alguns que não acreditam que uma mulher possa fazer isso. Mas eu afirmo que nós somos capazes igual a eles, é somente querer”, assinala.

Cecília comenta que passou a fazer parte dos concursos não para combater os homens, mas sim para que pudesse afirmar que utilizar tecnologias na propriedade realmente dá retorno. “E eu estou tendo esse retorno. E ele não é somente para mim, mas também para o meu país, porque somos nós que alimentamos ele e o restante do mundo. É preciso buscar tecnologia e acreditar naquilo que estamos fazendo, que isso traz resultado”, comenta. A produtora ainda acrescenta que ela possui este título por conta da alta produção que possui. “Eu não precisava desse título, não quero ser rainha, quero produção, resultados na minha fazenda”, afirma. Para ela, este título veio também pelo trabalho realizado pelos funcionários na propriedade. “Ninguém faz nada sozinha. Ali eu tenho os funcionários que cuidam da terra, colhem, fazem análise. É uma atividade que envolve diversas pessoas para dar certo”, diz. “Este título não é somente meu, mas sim de toda a equipe de trabalho”, afirma.

Senhora dos Pomares

Se engana quem pensa que Cecília investe somente nos grãos. No início, logo que começou as atividades na fazenda, a propriedade contava também com um espaço reservado para gado de corte. “Eu gostava e ainda gosto bastante do gado, é uma paixão que eu não sei explicar. Até cheguei a participar de leilões para adquirir o melhor animal”, diz. Porém, com o tempo deixou de trabalhar com esta atividade. “Eram 185 alqueires de terra. Chegaram a me aconselhar para plantar eucalipto ali, mas era uma terra tão fértil que eu recusei”, lembra.

Após algumas conversas com a cooperativa, foi esta que a ajudou na decisão do que fazer com aquele espaço de terra. “Há dez anos plantei laranja, que é uma cultura que dá um bom retorno. Não há um dia que me arrependa de ter plantado. Tenho até vontade de plantar mais”, cita. Cecília recorda que na época a cooperativa estava incentivando os produtores a plantar a fruta. “Eu passei quatro anos pesquisando. Fui conhecer pomares em outros produtores, fiz cursos, estudei o mercado, para onde iria esta laranja, além de saber sobre custos e rentabilidade da produção”, conta. Decidiu que onde antes estava o gado agora plantaria os pés de laranja. “Fui atrás do agrônomo da cooperativa especialista em laranja e então plantei 14 mil pés de quatro variedades”, diz.

Devido a boa matéria orgânica que já existia naquele pedaço de terra, a produção de laranjas foi um sucesso, fazendo com que a produção se mantivesse boa até hoje. Tempos depois a Cocamar iniciou um concurso para produção da fruta. E isso fez com que Rainha da Soja recebesse outro título, se tornando também a Senhora dos Pomares. “A minha produção sempre foi alta e por conta disso recebi diversos prêmios”, conta feliz.

Sucessão Familiar

E não somente com produção se preocupa Cecília. Há quatro anos ela vem delegando funções para o filho, para que no futuro ele tome conta da propriedade. “Estou passando para ele como as coisas funcionam e como devem ser feitas”, comenta. Para ela, é importante que o filho já saiba como a fazenda é administrada “porque é só fazendo que se aprende, só estando lá é que você vê como deve ser feito. Porque somente falar não adianta, é preciso estar junto” afirma.

De acordo com Cecília, a sucessão está sendo feita aos poucos, mas o filho já sabe os principais pontos para dar continuar às atividades da família. “Quando eu não estiver mais ele vai saber como dar continuidade. Porque quando eu peguei a propriedade não tinha conhecimento sobre nada”, conta. Mas, mesmo com esta dificuldade, a produtora conta que foi atrás de informação, ficou íntima da atividade rural e está no agro até hoje. “E vejo que, mesmo que meu filho é formado em Direito, ele já tomou gosto também pela atividade. E isso é sempre bom”, diz.

Com a utilização de altas tecnologias na propriedade e também a alta produção que Cecília sempre tem, para ela, este tipo de coisa é um incentivo para o filho continuar na propriedade. “Ele vê que é algo que dá certo, que existe um retorno. E quando os jovens percebem isso, é um incentivo para que fiquem na propriedade”, argumenta. A produtora ainda acrescenta que como a propriedade já conta com um moderno parque de máquinas e também um terreno pronto para trabalhar, basta o filho continuar fazendo o trabalho que já é desenvolvido.

Mulheres no Agro

E as diferenças sentidas por Cecília no decorrer dos anos quanto à presença da mulher no agronegócio são grandes. “Agora está bem mais forte. Há 20 anos não víamos esse movimento, a mulher não era valorizada de forma alguma. Mas hoje viemos lutando e a participação da mulher no agro é maior, e eu vejo que isto está repercutindo muito bem”, comenta. Para ela, atualmente a sociedade em geral está vendo que a mulher é tão capaz para realizar qualquer atividade quanto qualquer outro cidadão. “Não que eu seja autossuficiente para aquilo que eu estou fazendo, mas vejo que nós somos capazes de fazer tão bem tudo aquilo que qualquer outro faz”, afirma. “Eu estou fazendo melhor do que muitos homens, e sei que outras também podem fazer”, garante.

Mais informações você encontra na edição de Nutrição e Saúde Animal de novembro/dezembro de 2017 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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