Sanidade - 06.08.2018

Como a União Europeia reduziu os casos de Salmonella?

De maneira geral, o que eles fazem por lá, os produtores brasileiros fazem aqui. E os problemas que aparecem aqui, também aparecem lá

- Arquivo/OP Rural

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De que forma a Europa lida com as salmoneloses? No 19º Simpósio Brasil Sul de Avicultura (SBSA), o doutor Mogens Madsen, da Dinamarca, tentou responder a esta pergunta. “Salmoneloses - controle e resultados práticos na Europa” foi o tema da palestra de Madsen, realizada em abril. O SBSA foi realizado de 10 a 12 de abril, em Chapecó, SC, com organização do Nucleovet - Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas. De maneira geral, o que eles fazem por lá, os produtores brasileiros fazem aqui. E os problemas que aparecem aqui, também aparecem lá. “Em 2016, na União Europeia, a Salmonella foi encontrada, em média, nos níveis de 6,4% em frangos de corte”, citou.

Madsen informou que as infecções por Salmonella entérica representam a segunda zoonose mais frequente nas doenças que acometem humanos na União Europeia. “Trata-se de uma preocupação constante de saúde, pois leva a elevada perda de produtividade nas atividades profissionais, além de mortes”, destacou. No relatório oficial mais recente sobre zoonoses que acometem humanos na União Europeia, utilizando dados a partir de 2016, a salmonelose foi relatada em 94.530 casos confirmados, ou 20,4 casos para cada 100 mil habitantes. “Animais selvagens, aves domésticas e comerciais são grandes hospedeiros”, classificou.

A infecção em criatórios comerciais, revela Madsen, geralmente ocorre de forma assintomática no trato gastrointestinal das aves e pode, consequentemente, ser transferido via contaminação fecal para carcaças processadas. “No processamento a propagação ocorre devido à contaminação cruzada”, explica.

Na União Europeia, a prevalência de Salmonella em aviários comerciais varia muito de um país para outro. “Num levantamento realizado em 2005-2006, a prevalência variou de 0 a 68,2%, com uma média de 23,7% dos lotes. “Isso levou a União Europeia a estabelecer metas para a redução de Salmonella em cada um dos estados-membros”, comentou. “A legislação especifica testes obrigatórios e prazos requeridos para produtores de frangos de corte, poedeiras e perus”. Nada muito diferente do praticado no Brasil.

Ainda conforme Madsen, em frangos de corte, perus e suínos, a Salmonella é mais frequentemente detectada no produto in natura. Em 2016, na União Europeia, a Salmonella foi encontrada, em média, nos níveis de 6,4%, 7,7% e 2,4%, respetivamente. O palestrante informou que há mais de uma década a região vem apresentando tendência decrescente da salmonelose humana. “Isso pode ser atribuído, em grande parte, ao conhecimento detalhado da epidemiologia em animais de produção, às intervenções na cadeia de produção de alimentos, ao efeito da implementação da Legislação e metas de redução”, sugere.

Estratégias de controle

A estratégia da União Europeia no controle da Salmonella em aves de corte foca em toda a cadeia. Das fases inicias da produção ao monitoramento dos produtos processados, através de amostragem aleatória. “A integração vertical da produção avícola facilita o controle de toda a cadeia, mas também apresenta um alto risco de multiplicar uma infecção por Salmonella se, por exemplo, iniciar no topo da pirâmide de produção”. Uma única ave, comenta Madsen, pode infectar outros milhões de frangos. Desta forma, o foco de qualquer programa de controle de Salmonella deve estar na reprodução e na multiplicação.

Madsen destacou ainda os fatores de risco sobre a Salmonella e as opções de controle para a indústria avícola, incluindo legislação e práticas relevantes aplicadas na União Europeia. A maior parte da produção, segundo ele, é vendida in natura, não congelada. Além disso, nenhum aditivo além de água e sal é permitido na carne. Ele revela ainda que a maior parte da produção (exceto aves orgânicas) é realizada em galpões fechados, ambientalmente controlados. “Focamos a biossegurança em cada aviário, individualmente”. A luta contra a Salmonella na União Europeia foca ainda na não reutilização de qualquer resíduo e cama nova a cada novo lote. Exceto esse último item, nada muito diferente do Brasil.

Segurança alimentar

Entre as prioridades da União Europeia com relação à segurança alimentar na produção avícola, está, em primeiro lugar, a resistência antimicrobiana. “Monitoramento, legislação e pressão para promover o uso prudente de antibióticos na produção animal”, exige o especialista. A Campylobacter constitui a segunda prioridade da lista e envolve ações como o monitoramento do nível de Campylobacter nas carcaças e controle do processo de higiene.

A Salmonella ocupa o terceiro lugar no topo das preocupações do bloco com relação à produção avícola. Entre as ações para seu controle, a União Europeia endureceu a Legislação e instituiu Planos de Controle em cada um dos países, amostragem nas fazendas, abate e recalls de produtos. “A distribuição de sorotipos foi sendo ajustada e varia de país para país”.

Casos de salmonella em humanos

Madsen destaca que a Salmonella Enteritidis e a Salmonella Typhimurium (incluindo variantes) são as mais significativas nos casos de salmonelose humana na União Europeia (70% em 2016) e em todo o mundo. “No verão, muitos casos são adquiridos no exterior, em viagens de férias”, supõe. “Mas as dificuldades no resfriamento eficiente de alimentos também contribuem para as tendências sazonais”, afirma.

Embora existam mais de dois mil diferentes sorotipos de Salmonella, apenas alguns causam doenças graves e sistêmicas em hospedeiros específicos (S. Typhi em humanos, S. Gallinarum em aves, S. Dubli em bovinos, S. Cholerasuis em suínos). “A maioria dos sorotipos (grupo gastroentérico) coloniza um espectro mais amplo de hospedeiros, na maioria das vezes sem sintomas clínicos”, destaca. Além disso, todos os sorotipos podem causar gastroenterite de origem alimentar em humanos. Mas as variantes Enteritidis e Typhimurium são as causas mais frequentes. “Em muitos países, esses dois sorotipos respondem por 70-80% da samonelose humana”, especifica Madsen.

De que é a responsabilidade?

Madsen afirma que a segurança alimentar da carne de aves é da responsabilidade do produtor, não das autoridades. “A Salmonella em carne de aves ainda é um problema, mas já alcançamos muito conhecimento e progredimos bastante”. Ele informa que, no bloco europeu, a implementação do controle de Salmonella em aves de corte foi bem sucedida e os casos humanos de samonelose foram reduzidos em mais de 50% desde a sua introdução. “No entanto, é sempre necessário um elevado nível no abate e extrema higiene de processamento, uma vez que a produção viva nunca estará completamente isenta de Salmonella”, sustenta.

Ainda conforme Madsen, o controle da Salmonella requer várias ações ao longo da cadeia, trabalhando como uma engrenagem. “No entanto, as condições mudam ao longo do tempo e a situação deve ser constantemente monitorada para otimizar recursos e esforços”. Ele salienta ainda que nenhuma medida de controle funcionará se as pessoas que as executam não entenderem o porquê disso. “A Salmonella existe e não a eliminaremos completamente, mas podemos conviver em harmonia com esforços dedicados na produção de aves”, avalia.

Mais informações você encontra na edição de Aves de julho/agosto de 2018 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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