Sanidade - 21.05.2018

Campylobacter é negligenciada no Brasil, alerta pesquisadora

Presente intensamente na avicultura da Europa, Ásia, Estados Unidos, entre outros países o Campylobacter pode ser tão ou mais nocivo que a Salmonella

- Arquivo/OP Rural

A Salmonella ganhou todos os holofotes com os infortúnios envolvendo a BRF no Brasil. Há uma bactéria, no entanto, tão agressiva para a saúde humana quanto a Salmonella, que está sendo negligenciada no Brasil. Presente intensamente na avicultura da Europa, Ásia, Estados Unidos, entre outros países o Campylobacter pode ser tão ou mais nocivo que a Salmonella. Na União Europeia, das aproximadamente 31 mil internações por intoxicação alimentar registradas em 2016, cerca de 19 mil foram atribuídas à campylobacteriose (61%) e 12 mil à salmoneloses (39%).

Os dados estão disponíveis na palestra da doutora Laura Beatriz Rodrigues, no Seminário online Atualização em Microrganismos Emergentes e Reemergentes em Avicultura, disponibilizado no mês de março na rede mundial de computadores para aperfeiçoamento dos profissionais da cadeia produtiva. Promovido pela Agroqualita, consultoria do agronegócio com sede em Porto Alegre, RS, o evento online já foi visto por centenas de profissionais especializados. Além da palestra da doutora Rodrigues, conta com extensa programação técnica.

Professora de Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo, Rodrigues alerta para a inexistência de uma legislação e controle dessa bactéria no Brasil, entendendo que os efeitos tóxicos na população são severos, mas não diagnosticados. No Brasil, de acordo com dados apresentados na palestra, mais de 70% das internações são por bactérias não identificadas. “Se analisarmos dados que existem de número de surtos de casos de Campylobacter da União Europeia, Oceania, Ásia e Estados Unidos com o número de casos no Brasil, eu imagino que este número de não identificados (70,3%) pode estar levando as campylobacters junto”. Os dados são referentes ao perfil epidemiológico do Brasil entre os anos de 2007 e 2016 (gráfico 1).

Rodrigues explica que Campylobacter “é a denominação de bactérias que são curvas, descoberta em 1886, com 38 espécies e 16 subespécies com diferentes características”. “Algumas são exclusivas dos seres humanos, mas também zoonóticos, que acometem animais e podem ser transmitidas para humanos através do consumo”, explica.

A bactéria

A Campylobacter gram negativo consegue sobreviver a temperaturas de até 45 graus em média, por isso são chamadas de termotolerantes. O ambiente do frango, explica a professora, de alta densidade e calor da ave, é propício para seu desenvolvimento. Tanto que o microrganismo é encontrado principalmente nas aves, seguido dos bovinos.

No entanto, precisam condições específicas para sobreviver. “Algumas são termotolerantes, sobrevivem de 25 a 43 graus Celsius, até 46 graus. Cresce em baixas concentrações de oxigênio, precisa ambiente com gás carbônico, é sensível ao sal e pH”, cita. Também a atividade de água precisa ser alta para a manifestação da Campylobacter.

De acordo com a doutora, a bactéria sofre estresse com ar atmosférico, ressecamento, ph abaixo de 4,9 e acima de 9.0, armazenamento prolongado e resfriamento, entre outras variáveis.

Porém, pode permanecer inerte no meio ambiente por muito tempo e voltar a ser tóxica quando encontra as condições ideais. Além do que, é difícil de ser detectada. “Mesmo estando presente em uma amostra não pode ser identificado. Mas em ambientes in vivo, ao ser ingerido ou entrar em contato com uma pessoa ou animal, sai dessa condição de viável, mas não cultivável e retorna à sua infectividade. Para isolamento in vitro, precisamos condições de crescimento que dificultam o isolamento dessa bactéria. A principal dificuldade é a microaerofilia (características de seres que vivem com baixas concentrações de oxigênio)”, cita.

Incubação

Para conseguir detectá-la, é preciso produzir a microaerofilia, que “pode ser obtida com geradores de microaerofilia, que alteram concentrações dos gases do ar, ou fazer uso de cilindros”, cita. “Existem gases que têm concentração de 5% de Oxigênio, 10% de Co2 e 85% de Nitrogênio. Essa mistura de gases vai levar às condições ideais para a Campylobacter ser isolada”, explica. “O ideal é realizar incubação próximo a 42 graus Celsius, que são as mais importantes para a avicultura”, amplia, destacando que a maioria das campylobacters que acometem as aves são termotolerantes. “Para causar a doença, a bactéria necessita de fatores de virulência, mecanismos que vão permitir que a bactéria se adapte a diferentes hospedeiros e se esconda, manipule a resposta imune”, sustenta a doutora da UPF. A bactéria adere à mucosa intestinal para se desenvolver. Caso contrário, seria eliminada pelas fezes. Proteínas auxiliam o fixamento nas células. A Campylobacter provoca alternações no ciclo de vida da célula do hospedeiro”, destaca.

Sintomas

Ela é transmitida dos animais para homem pelo contato ou consumo de alimentos contaminados. “Vale lembrar que nas carnes, ao passar por processamento térmico, pelo cozimento, ele é eliminado. Se tiver em produtos crus ou em leite sem pasteurização, pode ser transmitida”, destaca. Além disso, ela contamina o meio ambiente. Assim, pode ser transmitida de homem para homem pelo ambiente (agua e terra contaminada). Até uma verdura que tenha contato com carne e for consumida sem ser higienizada, ou mesmo pela falta de higienização das mãos após ir ao banheiro ou trocar fraldas de bebês. Geralmente, causam gastroenterites. “Algumas espécies causam periodontite, meningite”, cita. Em casos mais extremos, pode provocar síndromes, como Síndrome de Guillain Barré, Síndrome de Miller-Fisher e Síndrome de Reiter.

“A Síndrome de Guillain Barré é uma infecção intestinal. A pessoa começa a apresentar sintomas neurológicos, formigamento, sensação de alfinetadas, dor muscular, fraqueza, alterações na sensibilidade e até descoordenação motora. O mais grave é que esta lesão pode levar à paralisia neuromuscular, até a parada respiratória por falta de contração da estrutura diafragmática”, alerta a especialista.

“A Síndrome de Miller-Fisher, é difícil andar, difícil ficar em pé e falta de coordenação de movimentos musculares. Pode envolver nervos cranianos, principalmente o facial. A Síndrome de Reiter é uma artrite reativa”, especifica a doutora Rodrigues.

Nas pessoas, pode causar ainda dores abdominais, diarreias, febre, cefaleia, mialgia, cólicas abdominais. Acomete principalmente pela baixa imunidade. “Em imunocomprometidos ou crianças, os casos são mais graves. O período de incubação é de dois a cinco dias. A fase aguda acontece cinco dias após a infecção, mas depende de quanto ingeriu de alimento infectado”, coloca.

Contaminação das aves

A contaminação, de acordo com ela, depende de alguns fatores, como idade e imunidade. “A contaminação depende da idade. Até 100% (das aves de um lote) podem estar colonizados após 72 horas após inoculação inicial. Como estão em mesmo ambiente, animais ciscam, se movimentam, direta e indiretamente ingerem resíduos (fezes). Na maioria dos casos, são assintomáticas, não vamos ter sinais clínicos pela campylobacteriose. Em casos raros, sinais clínicos, como alterações hepáticas”, comenta.

Mesmo assim, explica, tem rápida proliferação pela alta temperatura das aves. “A criação intensiva faz com que ocorra maior transmissão. No ambiente sobrevive por bastante tempo, na cama, na ave, nas fezes. Ele não cresce fora do hospedeiro, mas se mantém viável. Ou seja, quando encontrar ambiente adequado, vai voltar a ser infecciosa. “Já está adaptado à ave. Ele não cresce fora do hospedeiro, mas se mantém viável”.

Prevalência

De acordo com a palestrante, três espécies de Campylobacter são as mais prevalentes em frangos na União Europeia. “A campylobacteriose é a principal (causa de internação toxialimentar) na União Europeia, inclusive acima da Salmonella. Em 2016 foram 19 mil internações relacionadas à campylobacteriose contra 12 mil de Salmonella”, orienta. Nos Estados Unidos, há mais Salmonella, mas em segundo vem o Campylobcater (2017)”, amplia.

“Na Nova Zelândia, 161,5 casos a cada cem mil habitantes. No México, 11,7 crianças a cada cem mil com gastroenterite relacionadas ao Campylobacter. Essa discrepância grande ocorre porque existem casos endêmicos ou maior diagnóstico?”, questiona a professora.

No Brasil

Na opinião da especialista, no Brasil ainda faltam recursos para detectar o agente e diagnosticar a doença em humanos. “Nossos dados são muito poucos. Existe a subnotificação, não possui exames de rotina, não é incluído em legislações para controle microbiológico. Os dados são insuficientes. Em quatro anos, foram notificados apenas três surtos no Brasil”, comenta. “Se analisarmos dados que existem de número de surtos de casos de Campylobacter da União Europeia, Oceania, Ásia e Estados Unidos com o número de casos no Brasil, eu imagino que este número de não identificados (70,3%) pode estar levando as campylobacters junto”, comenta.

De acordo com a professora, no Brasil não existe um padrão oficial de controle para o mercado interno, pois o país não tem legislação exigindo a ausência de Campylobacter. “O mercado externo exige. Nos demais países, o Codex Alimentarius orienta como fazer isso, além de diferentes legislações em países”. Ou seja, para exportar o Brasil precisa fazer o controle.

Prevenção e controle

A professora explica que não existe nenhuma vacinação para as aves e que a sanidade é fundamental para manter essa bactéria longe das granjas e eficiência no frigorífico para evitar a contaminação na hora do abate. “O que podemos fazer é ter programas de autocontrole nos abatedouros, evitar ruptura de vísceras, fazer resfriamento e congelamento adequado das carcaças”, explica. Para as pessoas, a especialista indica “a higienização em si , como lavar utensílios, lavar as mãos ao usar o banheiro, além não comer carnes cruas e ter cuidado no contato com animais”. “A prevenção se baseia na higiene e no consumo de alimentos cozidos adequadamente”, reforça.

Trabalhos indicam contaminação

De acordo com a professora, trabalhos conduzidos por universidade do Rio Grande do Sul e Paraná encontraram Campylobacter em até 100% das amostras de frangos congelados e resfriados. “Isso pode estar acontecendo em nosso país”. Temos um grupo de pesquisa da Universidade de Passo Fundo, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da Tuiuti, do Paraná. Em um dos trabalhos, de 2008, foram avaliadas carcaças de frango e 97,9% de carcaças positivas avaliadas”, cita. Em outro experimento, Campylobacter jejuni e coli em 66%. Em um terceiro, de outro frigorífico, 83% em resfriadas e 100% em congeladas. Os índices variam muito de abatedouro para abatedouro. Algumas chegam a 100%.

Fica uma pergunta

“Minha conclusão é uma pergunta. O que na sua opinião ocorre em relação ao Campylobacter no Brasil? É emergente ou tem ausência de diagóstico, tanto de amostras clinicas como de alimentos? Apenas três casos nos últimos quatro anos serão reais?”, questiona a especialista.

Mais informações você encontra na edição de Aves de abril/maio de 2018 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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