Produção - 23.10.2017

Ambiência ruminal – Por que nossas vacas correm riscos?

Alguns fatores relacionados com evolução são pontos de desafio para saúde ruminal em vacas leiteiras

- Arquivo/OP Rural

Artigo escrito por Ricardo Xavier da Rocha, médico veterinário da Nutrifarma

A pecuária leiteira é uma atividade que teve uma evolução considerável nas últimas décadas. Alguns fatores relacionados com esta evolução são pontos de desafio para saúde ruminal em vacas leiteiras:

1 – Aumento na produção leiteira

A produção média por vaca aumentou muito nos últimos anos o que resulta em um aumento nas necessidades nutricionais (requerimentos) das mesmas. Este aumento no requerimento não consegue ser atendido somente por fontes de volumosos da dieta (pasto, silagem, pré-secado e feno), sendo necessária a inclusão de dietas concentradas (ração). O incremento de dietas concentradas é importante para atender as necessidades nutricionais das vacas, no entanto, são responsáveis por reduzir o processo ruminatório. A ruminação proporciona maior produção de saliva, sendo esta responsável por aproximadamente 80% da capacidade tamponante do rúmen;

2 - Qualidade de silagem

As silagens evoluíram nos últimos anos em relação à produção de matéria seca (MS) por hectare e a teor de amido, em que ambos apresentaram aumentos significativos nas últimas duas décadas. Este aumento é importante, pois acompanhou o aumento das necessidades das vacas, no entanto, o aumento do amido pode ser um ponto de risco para o desenvolvimento de acidose ruminal, já que ele é considerado um carboidrato não fibroso (CNF) que não estimula ruminação (produção de saliva). Este ponto pode ser agravado em silagens com partículas muito pequenas no momento do ensilamento. Quando muito finas (e isso é uma realidade) proporcionam menor estímulo ruminatório. Outro ponto em relação à qualidade da silagem se refere às alterações na qualidade da mesma, como por exemplo, a presença de micotoxinas que podem levar a prejuízos para a saúde geral da vaca e também redução no consumo e aproveitamento dos alimentos. No caso das micotoxinas a presença e, principalmente a interação entre elas, resulta em perdas consideráveis em desempenho pelo seu efeito no consumo voluntário de alimentos, imunidade, ineficiência reprodutiva, além de casos de óbito em rebanho;

3 – Ambiência de vacas leiteiras

Existe uma previsão de elevação da temperatura global para as próximas duas décadas de aproximadamente 1,5º C com possibilidade de ser maior caso os governos e a população não tomem atitudes para redução dos fatores de risco ambientais para esta elevação. Este aumento tem impacto direto na pecuária leiteira em função da geração de condições de estresse térmico. Neste cenário de elevação, as vacas irão passar somente três meses na zona de conforto térmico (-1 à 16ºC). O restante do ano, as vacas passarão em situação de estresse térmico que tem como uma das consequências a acidose ruminal devido à redução na ingestão de matéria seca (MS) oriunda do volumoso e também pela perda de saliva durante a perda de calor (evaporação). A diminuição da ingestão de volumoso resulta em diminuição da ruminação e consequentemente menor quantidade de saliva disponível para o tamponamento ruminal.   

Consequências da acidose ruminal em um rebanho leiteiro

1 – Qualidade de leite

Rebanhos que possuem vacas em acidose ruminal podem ter a composição do leite alterada. A redução dos teores de gordura no leite é uma característica desta situação, em que o fator desencadeador é a falha na biohidrogenação de ácidos graxos insaturados no rúmen. Esta redução de gordura é chamada de “inversão gordura /proteína no leite”, no entanto, os valores não necessariamente precisam estar invertidos (proteína mais alta que a gordura). Se o valor da relação gordura/proteína (valor da divisão do percentual de gordura pelo percentual de proteína) do leite for igual ou inferior a 1,10 indica acidose ruminal.  Além da condição de inversão gordura/proteína outras alterações no leite também podem ocorrer como, por exemplo, desordens no índice de crioscopia (maior quantidade de água no leite), leite instável não-ácido (Lina) e alteração na acidez titulável do leite (leite alcalino);

2 – Sistema digestório

A acidose ruminal pode resultar em casos de diarreia em rebanhos leiteiros. Pode estar associada ao tempo de passagem do alimento, sendo que o tempo de passagem mais rápido reduz o aproveitamento de nutrientes. Além da diarreia, desordens como o deslocamento de abomaso também podem ocorrer em decorrência de um baixo preenchimento ruminal;

3 – Saúde geral de vacas

Problemas como deficiência de vitaminas (em especial do complexo B) podem ocorrer em animais com acidose. Doenças como polioencefalomalácia (deficiência de vitamina B1), anemia (deficiência de B12) e baixo desempenho energético (deficiência de B12 e biotina). Além disso, a acidose ruminal pode levar a doenças hepáticas (abscesso). 

As micotoxinas são metabólitos secundários produzidos por fungos que se desenvolve no alimento dos ruminantes (silagem, pré-secado, rações, ...) e que resultam em problemas sérios de saúde para a vaca e ser humano. Os principais prejuízos estão associados à imunidade baixa e ineficiência reprodutiva. A contaminação do campo ou dos alimentos depende de fatores como ambiente, condições climáticas e espécie de fungo presente.

Alternativas

1 – Manutenção de pH ruminal

Vários fatores são importantes para a manutenção do pH de rúmen. Entre eles, o mais importante é possibilitar a capacidade de ruminação de uma vaca. Nesse sentido, o atendimento da exigência de fibra se faz necessário. O tamponamento via fibra (produção de saliva) representa 80% da capacidade tamponante. O restante é dividido em dois fatores, sendo a adaptação do rúmen à dieta de lactação e também a inclusão de tamponantes na dieta. A dieta pré-parto com inclusão de concentrado tem por objetivo o adensamento da dieta para atender requerimentos nutricionais e também estimular o desenvolvimento de papila ruminal. No caso do tamponante é necessária a presença de uma substância tampão (bicarbonato de sódio) que é responsável por neutralizar os ácidos gerados durante o processo de fermentação ruminal e também a presença de substâncias alcalinizantes (óxido de magnésio) que resultam em estabilidade do pH (necessário seis horas pós alimentação). Além dos tamponantes, existem outras possibilidades que podem ser utilizadas para manter o rúmen com um pH saudável. Entre estas, a levedura na dieta de ruminantes auxilia na melhora do status imunitário e no controle na população de bactérias que produzem ácido lático (responsável pela acidose) melhorando a população de bactérias que fermentam a fibra (celulolíticas). Além disso, a possibilidade de uso de antibióticos ionóforos (monensina, lasalocida) que também são moduladores da microbiota ruminal.

2 – Micotoxinas

Em função dos tipos de alimentos que são utilizados atualmente, que apresentam uma boa parte das vezes contaminações por micotoxina, o uso de adsorvente de micotoxina é indispensável para os sistemas de produção. Essa necessidade de uso existe pois as micotoxicoses são doenças silenciosas e que muitas vezes vêm “disfarçadas” de problemas de glândula mamária (CCS alta) e também por desordens reprodutivas, além da ocorrência de outras doenças em função da característica imunossupressora que geram nos rebanhos. 

Considerações finais

Baseado nas informações citadas acima é importante prestarmos atenção nas consequências de acidose ruminal, por exemplo, escore de fezes (diarreia), composição do leite (inversão gordura/proteína do leite) para que possamos tomar medidas corretivas e preventivas para esta situação. No caso das micotoxinas, é relevante lembrarmos que é um problema silencioso em que o uso da prevenção é a melhor opção, pois quando o problema já está instalado a solução, se ocorrer, pode levar um tempo considerável.

Mais informações você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de agosto/setembro de 2017 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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