Suinocultura - 07.06.2018

Alta densidade na creche é bom... até que ponto?

Encontrar padrão entre bem-estar animal e otimização das instalações para sustentar as altas densidades deve ser prioridade do suinocultor; se não bem cuidados, desempenho e comportamento são diretamente afetados

- Arquivo/OP Rural

Aproveitar ao máximo as instalações, sem perder o desempenho e bem-estar animal com superlotações. Com o aumento do número de animais, o espaço das granjas foi ficando menor para cada animal. E quando essa falta de espaço começa a dar prejuízos? É isso que o médico veterinário Bruno Marimon respondeu na participação que fez durante o Simpósio Internacional de Suinocultura (Sinsui), que aconteceu de 22 a 24 de maio, em Porto Alegre, RS.

Falando sobre a “Densidade na creche: até onde podemos reduzir espaço sem prejudicar o desempenho dos leitões”, Marimon explica que esta alta densidade tem surgido devido, principalmente ao melhoramento genético feito nos últimos anos. “Não é um problema produzirmos mais. Mas o que aconteceu foi que as fêmeas acabaram, por conta deste melhoramento, produzindo mais leitões e essa melhora foi muito rápida e intensa”, comenta. Ele diz que o número de animais aumentou numa velocidade muito rápida. “E devido ao tempo que foi curto, as instalações que recebem esses leitões não acompanharam esse crescimento”, introduz.

O médico veterinário informa que o problema não é que há muito leitão, mas sim que este crescimento foi muito rápido e a cadeia não conseguiu acompanhar. “Além do mais, construir uma granja não é barato, então não tem como fazer novas”, justifica. Ele conta que o aconteceu foi que em algumas regiões havia mais leitão do que espaço. “As granjas ficaram do mesmo tamanho, mas o espaço individual por leitão acabou reduzindo”, expõe.

Mesmo com essa diminuição de espaços, o profissional garante que a condição não diminuiu a qualidade dos leitões. “Na realidade, os animais chegaram nas granjas, muitas vezes, até melhores, porque tudo foi melhorado geneticamente. Mas, o maior problema foi que se colocou leitões em uma densidade que antes não se tinha conhecimento técnico de como proceder”, diz. Marimon comenta que existia uma recomendação técnica de que todos os estabelecimentos deveriam ser construídos, basicamente, a partir desta recomendação, que é baseada em uma equação. “Essa equação tirava uma média da produção mensal ou anual daquela granja, e dependendo do cálculo estipulava qual deveria ser o tamanho do galpão”, conta. Dessa forma, segundo o médico veterinário, a densidade aumentou, mas não teve como aumentar as granjas.

Desempenho e comportamento afetados

De acordo com Marimon, com este aumento de densidade e menor espaço afetou o desempenho dos leitões. O profissional explica que em uma pesquisa desenvolvida por ele, a redução do espaço pode afetar o desempenho, principalmente zootécnico dos animais, como ganho de peso, consumo de ração e conversão alimentar. “O desempenho é afetado em menor escala. Mas neste fator, o resultado mais afetado foi o ganho de peso. Os leitões com menos espaço tiveram um ganho de peso menor”, informa.

Outro fator que a diminuição do espaço afetou foi o comportamento dos animais, conta Marimon. “Essa redução de espaço prejudica um pouco os animais. O que notamos foi o aumento da frequência e intensidade das brigas, além do aumento do canibalismo”, diz.

E devido a, principalmente, estes dois fatores o que também foi prejudicado é o lucro do suinocultor. “Mesmo com a densidade maior, isso acabou gerando prejuízos para o produtor justamente pelo fato da perda de desempenho e das brigas frequentes”, explica Marimon. Dessa forma, o profissional questiona qual a ideia em aumentar a densidade nas propriedades. “Conseguir produzir mais nas mesmas instalações é bom. Mas não podemos abrir mão nem nos esquecer do bem-estar animal, que é justamente a falta dele que notamos no comportamento dos animais”, afirma.

Como evitar problemas?

Marimon explica que é difícil estabelecer um padrão que se encaixe em todas as granjas do país para resolver a situação. “Temos diversos tipos de granjas, com diferentes qualidades de material e instalações. Poderíamos falar de muita coisa que afetaria o desempenho dos leitões, como ambiente, temperatura, umidade. Tudo isso soma com a densidade animal”, comenta. Porém, ele diz que se for isolado somente a densidade e imaginar que todos os outros critérios que são importantes estiverem adequados, não é preciso seguir uma densidade preconizada há muitos anos. “Isso porque na realidade não houve uma diferença significativa daquela com algumas outras densidades que encontramos hoje”, comenta.

O médico veterinário explica que o tamanho recomendado é de 0,33 metro quadrados por leitão. “Densidades de 0,28 e 0,25 metro quadrado por animal não afetaram tanto o desempenho. Mas, mais apertado que isso, como por exemplo 0,20 metro quadrado por leitão, já começa a prejudicar”, esclarece. Ele acrescenta que isso deve ter total atenção do suinocultor, já que compromete o bem-estar animal.

O profissional informa que o suinocultor pode manter uma quantidade mais alta de leitões, colocando uma quantidade um pouco maior de leitões por metro quadrado. Mas isso, desde que ele tenha mais comedouros. “Isso desde que o leitão consiga ter acesso a comida fácil, que haja boa socialização dos animais, além de manter as qualidades básicas de ambiência, temperatura e ventilação. Enfim, o básico para o animal”, cita.

Não é só matemática

Acertar este número ideal de animais é um pouco mais complicado, explica Marimon. De acordo com ele, é bem difícil dar uma média de quantos animais deveria haver na baia. “Porque eu posso dar um valor que vai ser bom para um produtor, mas não para outro. Porque cada um tem uma realidade. Determinado produtor tem um comedouro maior, que forneça mais espaço para o leitão, enquanto de outro é menor; o manejo também muda de uma propriedade para outra. E isso é algo que afeta bastante”, diz.

Marimon explica que a densidade tem um fator somatório muito grande, como a lotação – que é o número de leitões por baia – e com espaço de comedouro – que é o espaço de cocho que o animal tem disponível para se alimentar –, que são fatores que se somam, e quando isso acontece os resultados podem ser bem piores. “Cada produtor tem uma realidade e ele deve trabalhar para se adequar a sua realidade. E dessa forma é bastante difícil ter um padrão global de quantos animais devem ser (colocados nas baias)”, afirma. Ele diz que o ideal é o médico veterinário que faz a assistência técnica que pode auxiliar o suinocultor nesta questão. “Se ele conseguir identificar quais são os fatores presentes ali naquela região, naquela granja em específico, o técnico então vai conseguir dar uma orientação mais precisa”, explana.

Bem-estar animal

Um dos pontos mais citados por Marimon é a importância do suinocultor não se esquecer do bem-estar animal. “Este é hoje um fato que está muito em pauta, e querendo ou não, o aumento da densidade afeta isso diretamente. A falta disso é um ponto crítico para o leitão”, afirma. Ele complementa que, em algum momento, aumentar a densidade vai afetar o bem-estar do leitão, seja em problemas de saúde ou no próprio desempenho do animal.

O principal, para o médico veterinário, é encontrar um ponto de equilíbrio, em que não seja afetado o bem-estar e seja possível otimizar o aproveitamento das instalações. “Queremos produzir mais, mas sem afetar o bem-estar. É um ponto que devemos cuidar. O ponto de equilíbrio está entre otimizar os espaços e não perder o bem-estar”, aponta.

Mais informações você encontra na edição de Suínos e Peixes de maio/junho de 2018 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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