Nutrição - 05.10.2017

Aditivos devem melhorar potencial e não corrigir erros de manejo e nutrição

“Aditivos não devem ser usados para corrigir erros de manejo ou déficit nutricional. Aditivos devem ser usados para sistemas equilibrados”, define o professor doutor da FMVZ, da USP, Francisco Palma Rennó

- Arquivo/OP Rural

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Aditivos são todas as substâncias não naturais dos alimentos inseridos dentro da dieta dos animais de produção para melhorar seu desempenho zootécnico. Um exemplo é a monensina, usada em larga escala pela bovinocultura brasileira pela sua capacidade de melhorar a eficiência energética no processo fermentativo do rúmen, mas há outros compostos capazes de potencializar a eficiência dos rebanhos, como óleos essenciais e enzimas exógenas, que podem até ter efeitos microbianos e melhorar a saúde do animal. Muitas vezes, porém, o produtor usa equivocadamente os aditivos para tentar solucionar problemas já instalados na propriedade, e a eficácia desses produtos fica comprometida.

“Aditivos não devem ser usados para corrigir erros de manejo ou déficit nutricional. Aditivos devem ser usados para sistemas equilibrados”, define o professor doutor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), da Universidade de São Paulo (USP), Francisco Palma Rennó. Durante uma palestra que abriu o segundo dia de discussões do 14º Simpósio do Leite, em Erechim, RS, no mês de junho, Rennó alertou para os riscos de perder tempo e dinheiro usando aditivos para planteis que não estejam com a saúde, o manejo e a nutrição em dia.

“Temos que saber porque usar aditivos. Aditivo é tudo que se coloca na dieta que não é natural dos alimentos, mas o produtor precisa caracterizar seu propósito”, orienta. “O aditivo deve ser usado em um sistema de produção equilibrado, ou seja, quando a vaca tem garantido o fornecimento qualitativo e quantitativo dos nutrientes. Se não for assim, o sistema está em desequilíbrio”, destacou o médico veterinário.

Além disso, Rennó chamou a atenção para o manejo correto para potencializar os efeitos dos compostos. “É preciso um manejo que ofereça ao animal a oportunidade de expressar seu potencial”, sugeriu. Só assim, entende, o uso dos aditivos vai realmente trazer ganhos e não apenas custos. “Usados para sistemas em equilíbrio, há ganho extra de produtividade. Não é para corrigir erro de manejo ou estratégias nutricionais equivocadas. Não tem outra forma de ser (usado) a não ser em sistemas em equilíbrio”, ratificou.

Prova Real

Há algumas formas de saber se os aditivos incorporados à nutrição do rebanho de vacas leiteiras estão ou não fazendo efeito. De acordo com o professor, um deles é o aumento de produção de leite sem mudança no consumo de matéria seca e o outro é a manutenção da produtividade reduzindo o consumo de alimentos. “Em outras palavras, fazem mais com o mesmo ou fazem igual com menos”, caracteriza.

Estudos conduzidos pelo estudioso no campus de Pirassununga da FMVZ e apresentados durante sua explanação no Simpósio do Leite demonstram o potencial de aditivos na nutrição. De acordo com ele, em um primeiro cenário, sem interferir em consumo de matéria seca, o aumento da produção observado foi entre 3 e 6%. “Ou seja: 600 gramas a um quilo (de leite) dia. Isso a gente espera que aconteça”.

Em um segundo cenário, com menos consumo de matéria seca e mantendo a mesma produção, as vacas também se deram bem com os aditivos. A redução do consumo, sem afetar a produção, segundo o professor, foi de até 5%. “O aumento de eficiência pode ser expresso de várias formas”, comentou. “Conseguir um aumento de eficiência entre 4 e 6% é muita coisa”, opinou o pesquisador.

Ainda conforme Rennó, o uso de aditivos na nutrição pode melhorar a qualidade do leite, refletindo em mais lucros para o produtor, já que muitas indústrias remuneram o homem do campo de acordo com as características físico-químicas do leite, especialmente sobre a contagem de células somáticas, teor de gordura e proteína. “O aditivo também pode gerar ganho na composição do leite, na qualidade”, apontou.

Condições Adequadas

Na visão de Rennó, é preciso ter em mente o equilíbrio de baterias, fungos e outros microrganismos, que “são muito importantes para o animal, pois digerem celulose, produzem energia (ácidos graxos), produzem proteína microbiana, suprem em parte a vitamina do complexo B, ajudam na detoxificação de compostos nocivos ao hospedeiro”. “Quando trabalharmos com aditivos, de alguma maneira vamos selecionar microrganismos que, de alguma forma, terão a capacidade de digerir alimentos mais que o usual”, orientou.

Ainda conforme o palestrante, pode haver uma variação de resultados dependendo do ciclo produtivo e da alimentação da vaca. “Há variação de resultados quando usa aditivos porque a gente depende dos microrganismos, qual a fase do ciclo produtivo se encontra e qual a base de alimentação”, comenta. Por isso, segundo ele, as empresas e universidades pesquisam por aditivos que funcionem em um maior número de cenários possível.

Rennó resume a três pontos fundamentais a tomada de decisão para o uso de aditivos”: “melhoria na eficiência de utilização de nutrientes, relação custo/benefício e redução de microbianos na produção animal”.

Monensina

Segundo Rennó, “a monensina talvez seja a referência em aditivos na nutrição de ruminantes”. De acordo com o doutor, ele é usado como anti coccidiano e para ajudar na fermentação do rúmen. “A monensina é o aditivo mais usado em bovinos. Cerca de 90% dos profissionais indicam a monensina na ração. Ela melhora a eficiência energética no processo fermentativo do rúmen, aproveita a energia, fazendo sobrar mais energia pra vaca, que vai produz mais”, evidenciou.

Analisando 36 artigos e 71 experimentos, uma meta análise proposta por pesquisadores brasileiros, segundo Rennó, demonstrou a eficiência do produto. “O resumo da ópera é que o consumo foi 2% menor (0,3 kg/dia) e a produção de leite 2% maior (0,7 kg/dia)”.

Dosagem

Tanto a alta quanto a baixa dosagem, porém, pode trazer riscos ao produtor. “Inserir aditivos na dieta tem um problema. A dosagem precisa ser equilibrada. Ela varia de baixa, que são 12 miligramas por quilo de matéria seca, a alta, que são 35 mg/quilo de matéria seca. Quanto maior a dose, muda o efeito. Quanto menor, eu espero menores impactos sobre consumo. A gente recomenda de 15 a 24 mg por quilo de matéria seca. Se tem mais que isso, tem riscos”, sugere.

Óleos Funcionais

Outros aditivos, que agora ganham o marcado muito por conta da redução do uso de antibióticos na produção animal, são os óleos funcionais. O pesquisador explica que esse material, que são compostos de plantas, podem ter efeito medicamentoso nos animais e semelhante, por exemplo, à monensina. “Essa tecnologia dos óleos funcionais ainda é nova, está na primeira fase. Tem muita coisa para acontecer, mas já é reconhecido o efeito antimicrobiano, a otimização dos processos fermentativos no rúmen”, pontua.

Em sua opinião, os óleos devem ganhar mercado por pressão do mercado em reduzir o uso de antimicrobianos. “Existe uma discussão muito forte sobre a restrição ao uso de antimicrobianos, por preocupação em provocar resistência (bacteriana) em humanos. Há uma tendência de essa redução acontecer a curto prazo. Já existe (mais incisivamente) em suínos e aves”, alertou o médico veterinário.

Rennó também apresentou estudo demonstrando o efeito positivo na produtividade ao usar óleos funcionais na produção leiteira. “O grupo controle (sem aditivos) produziu 25,92 litros/dia e o grupo que recebeu óleos funcionais produziu média de 27,17 litros”, apontou.

Enzimas Exógenas

As enzimas exógenas também ganharam o mercado da pecuária de leite no Brasil, segundo Rennó, pela sua eficiência dentro do rúmen. “As enzimas exógenas aumentam o pool de enzimas ativas no rúmen. Ela provoca otimização dos processos digestivos e fermentativos ruminais, entre outros benefícios, como ajudar na produção de proteína”, comenta. De acordo com ele, com a enzima fibrolítica, por exemplo, “a vaca vai comer mais facilmente partículas maiores, o que é importante para evitar a seleção do alimento”, argumenta.

Combinação de Aditivos

Usar mais de um aditivo pode melhorar ainda mais a eficiência do rebanho? O professor da FMVZ/USP alerta para o uso desenfreado. “A combinação de aditivos é um assunto polêmico. Já vi dietas com até sete aditivos juntos, mas essa regra de quanto mais, melhor, não funciona. Não é bem assim”, orientou. “As associações entre aditivos na dieta animal devem ser estudadas com cautela e caso a caso. No Brasil, vemos isso acontecer muito porque o profissional quer corrigir erros de manejo e nutrição com aditivos”, apontou. Em sua opinião, “é melhor usar um, no máximo dois”.

Mais informações você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de agosto/setembro de 2017 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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