Nutrição - 08.10.2018

Ácidos orgânicos protegidos e microencapsulados: tecnologia eficiente no controle das salmonelas

Várias tecnologias têm sido desenvolvidas para reduzir a contaminação dos animais e seres humanos por essa bactéria

- Arquivo/OP Rural

Artigo escrito pela doutora Marlene Schmidt, gerente Técnica Comercial da Tectron

A cadeia produtiva de frangos de corte ocupa posição de destaque no agronegócio brasileiro e mundial, constituindo-se no setor pecuário com maior índice de industrialização, progresso tecnológico, além de ser considerada forte geradora de empregos e de renda para a população brasileira.   

O Brasil destaca-se como maior exportador e segundo maior produtor de carne de frango do mundo. Entretanto, os países importadores têm aumentado significativamente o rigor na escolha dos fornecedores de carne, permitindo a entrada no país apenas de produtos com baixa ou nenhuma contaminação, principalmente por Salmonella. Apesar de todo o monitoramento realizado pelas indústrias visando segurança alimentar, ainda assim essas infecções têm sido frequentes. O embargo da União Europeia ao frango brasileiro em abril deverá gerar este ano perda de 30% sobre o total do produto exportado pelo Brasil para o bloco, formado por 27 países, conforme projeção da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).

A Salmonella é uma bactéria gram negativa da família Enterobacteriaceae, que é dividida em duas espécies, Salmonella Entérica e Salmonella Bongori. Essas espécies da bactéria, por sua vez, são divididas em subespécies e mais de dois mil sorotipos. Os diversos sorotipos podem causar doenças restritas (salmoneloses) a determinadas espécies animais e até ao homem, como Salmonella entérica sorotipo Typhi (humanos), Salmonella entérica sorotipo Gallinarum (galinhas), entre outros. As salmonelas são frequentemente encontradas em alimentos com alto teor de umidade e alta concentração de proteína e, nas carnes in natura, podem ser resultado de ampla contaminação cruzada nas plantas industriais.

Diante do exporto, para que o Brasil se mantenha no topo do segmento das exportações, a indústria alimentícia vem buscando alternativas tecnológicas para reduzir a carga microbiana de Salmonella de seus produtos. Nesse sentido, várias tecnologias têm sido desenvolvidas para reduzir a contaminação dos animais e seres humanos por essa bactéria. Do ponto de vista nutricional, durante muitos anos o uso de antimicrobianos foi a única estratégia de controle da Salmonella. Porém, com o aumento no número de cepas resistentes a vários princípios ativos e das restrições de diversos países consumidores ao uso de antimicrobianos, tornou-se necessário o desenvolvimento de alternativas de controle destas bactérias patogênicas. Assim, o uso de aditivos como ácidos orgânicos na criação de aves vem crescendo consideravelmente nos últimos anos. 

Ácidos

Os ácidos orgânicos são substâncias naturalmente produzidas por plantas, animais e microrganismos com funções importantes no seu metabolismo. Os ácidos utilizados na nutrição animal são considerados fracos devido a sua composição química, com sua cadeia de carbono contendo não mais do que 7 átomos. São ácidos de difícil dissociação quando comparados aos ácidos inorgânicos, o que justifica sua utilização e funções no trato gastrointestinal (TGI) dos animais. Estes ácidos apresentam diversas funções no TGI como: regulação do pH, efeito antimicrobiano e capacidade aniônica tamponante com cátions de minerais das dietas, aumentando a digestibilidade e absorção desses. Além disso, auxiliam na manutenção da integridade intestinal.

Tendo em vista que as aves apresentam particularidades anatômicas e fisiológicas diferentes de outras espécies, como o proventrículo, por exemplo, com capacidade secretória de pepsinogênio e ácido clorídrico, sendo a primeira barreira para impedir ou reduzir a colonização de patógenos no TGI, o desenvolvimento de produtos compostos de ácidos orgânicos destinados para aves deve levar em consideração tais diferenças para obter a melhor efetividade deste aditivo.

Os principais ácidos orgânicos utilizados em dietas de aves são o acético, ascórbico, benzoico, cítrico, fórmico, fumárico, lático, málico, propiônico, entre outros, além de seus sais e/ou da combinação destes.

Com relação a forma de apresentação dos ácidos orgânicos utilizados na nutrição das aves, pode ocorrer na forma de ácidos livres, sais de ácidos, ácidos protegidos, ácidos microencapsulados ou em conjunto com outras substâncias que possam atuar sinergicamente com esses.

Os ácidos orgânicos na forma livre ou seus sais, em sua ampla maioria, são dissociados antes de chegar no intestino, tendo ação principalmente na regulação ou redução de pH do meio e controle de microrganismos patogênicos presentes no primeiro terço do TGI. Os ácidos livres apresentam efeito positivo sobre desempenho zootécnico, saúde do TGI e características de carcaça das aves, porém as dosagens empregadas são altas, variando entre 0,2 e 2% de inclusão. Estes ácidos apresentam também maior potencial corrosivo, maior volatilização e demandam maiores cuidados para serem manipulados nas fábricas de rações, por vezes resultando em acidentes operacionais.

Adicionalmente, sabe-se que a Salmonella é frequentemente encontrada nas porções mediais e distais do intestino, onde, grande parte dos ácidos orgânicos na forma livre não são capazes de agir de forma eficiente, principalmente por causa do pH encontrado. Dessa forma, a tecnologia de microencapsulação é mais consistente em atingir os objetivos esperados.

Os ácidos microencapsulados e seus sais, por estarem revestidos por uma camada lipídica, após ação de sais biliares e lipases, têm ação principal no intestino delgado, onde podem desempenhar função antimicrobiana, por meio de dissociação dentro da célula de bactérias pH-sensíveis como coliformes, Salmonella spp, Listeria spp, dentre outras. Essa dissociação do ácido orgânico dentro da célula das bactérias resulta em liberação de cátion de hidrogênio (H+), o qual reduz o pH intracelular, ocasionando uma demanda energética na tentativa de corrigi-lo.

Além disso, essa dissociação libera também o radical (RCOO-) o qual é impedido de sair pela membrana celular, inibindo o transporte de elétrons nas membranas da célula, interferindo assim na replicação de DNA e RNA, alterando a síntese proteica, resultando em desnaturação de proteínas, bloqueio de enzimas do metabolismo de carboidrato celular e ocasionando apoptose (morte celular bacteriana). Ainda, após o processo de microencapsulamento, um dos resultados positivos é a redução do seu potencial corrosivo e da volatilização, deixando o produto mais seguro para a manipulação e utilização.

Em resumo, as principais vantagens do uso de ácidos microencapsulados são: redução da dose incluída na ração, maior estabilidade ao passar por processamentos térmicos; facilidade e segurança na manipulação; e atuação nas diferentes condições do TGI das aves. Do ponto de vista físico, o microencapsulamento confere ao produto maior fluidez, resultando em melhor miscibilidade nas rações, quando comparado a ácidos não microencapsulados. Adicionalmente, o processo de microencapsulamento promove adensamento uniforme de partículas.

Estudo

Trabalho realizado no laboratório Mercolab, PR, com frangos de corte até os 28 dias de idade, inoculados com Salmonella Enteritidis, destacou a efetividade da utilização de ácidos orgânicos microencapsulados na redução de contagem deste patógeno nas aves e na cama.

Em suma, os ácidos orgânicos microencapsulados são uma eficiente tecnologia para controle de enterobactérias patogênicas, melhorando a saúde intestinal dos animais e, consequentemente, diminuem o risco de contaminação na carne e aumentam a segurança alimentar. Estes aditivos constituem uma ferramenta segura, de fácil manuseio nas fábricas de ração, apresentando maior fluidez e melhor miscibilidade em comparação com ácidos não microencapsulados.

Mais informações você encontra na edição de Aves de setembro/outubro de 2018 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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