Nutrição - 06.11.2017

A interferência das micotoxinas na nutrição de gado de leite

Estimativa é que 25% das culturas em todo o mundo sejam contaminadas anualmente e que essas substâncias tóxicas levem a perdas econômicas significativas

- Arquivo/OP Rural

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Artigo escrito por Trevor K. Smith, professor universitário do Departamento de Ciência Animal e Avícola da Universidade de Guelph, de Ontário (Canadá) e Sofya N. Korosteleva, nutricionista de Ruminantes da Nutreco Canada Inc ., St. Mary's, Ontário, Canadá

A ocorrência de micotoxinas e suas concentrações variam a cada ano em decorrência das alternâncias climáticas e do estresse das plantas, o que pode ocasionar a incidência de micotoxinas. A estimativa é que 25% das culturas em todo o mundo sejam contaminadas anualmente e que essas substâncias tóxicas levem a perdas econômicas significativas devido aos seus efeitos na produção animal, as perdas nas lavouras e aos custos com pesquisas e regulamentações.

Um estudo realizado por agricultores da Carolina do Norte, Estados Unidos, rastreou a presença de micotoxinas em amostras de alimentos em um período de nove anos e indicou que até 70% das amostras foram contaminadas com um ou mais tipos das cinco micotoxinas analisadas.

Outra pesquisa recente na Holanda verificou 169 amostras de dietas provenientes de 24 propriedades leiteiras para 20 micotoxinas e os resultados apontaram que a silagem de milho foi o alimento contaminado com maior frequência. As micotoxinas estavam presentes em até 54% dessas amostras. Porém, a análise de contaminação na ração normalmente não é completa porque as micotoxinas conjugadas não são detectadas pelas análises laboratoriais de rotina, e até 70% de desoxinivalenol (DON) pode estar presente em formas conjugadas não detectáveis.

DON

A DON é uma micotoxina da família dos tricotecenos, produzida por fungos do gênero Fusarium, que tem demonstrado inibir a síntese de proteínas celulares. E o efeito dessa substância, segundo dados de pesquisa de campo, mostram uma associação entre a contaminação das dietas com DON e o baixo desempenho em rebanhos leiteiros. A exposição à silagem de capim do Norte europeu contendo quantidades elevadas desse tipo de micotoxina causou uma síndrome tóxica em bovinos caracterizada por aumento de mastite e laminite.

Os levantamentos apontaram ainda que as micotoxinas conjugadas são degradadas para liberar micotoxinas livres durante a digestão. E os sintomas de micotoxicoses no gado de leite dependem muito das micotoxinas envolvidas e sua interação com outros fatores de estresse. Animais altamente estressados, como as vacas primíparas, são mais sensíveis às micotoxicoses porque sofrem de um certo grau de imunossupressão. E há reações que podem incluir sintomas não evidentes como a redução da produção e no consumo de alimento, além de prejudicar a reprodução.

Aflatoxinas

Outras variedades de micotoxinas são as aflatoxinas (AF), produzidas por Aspergillus flavus e A. parasiticus, fungos tropicais e semi-tropicais que se desenvolvem em altas temperaturas sob condições tanto de alta umidade como de seca. A transferência de aflatoxinas é um problema de saúde pública devido à natureza carcinogênica destes compostos. A taxa de transferência das micotoxinas do sangue para o leite pode ser afetada por doenças sistêmicas ou local levando a barreiras de transporte deficientes. E o nível de produção de leite também irá influenciar os resíduos de aflatoxinas no leite.

Além desses fatos, os resultados também apontaram que a função ruminal demonstrou ser negativamente afetada pelas micotoxinas, sugerindo um papel significativo do rúmen no manejo de exposição de micotoxinas, na biotransformação e excreção de metabólitos. As micotoxinas sofrem biotransformação microbiana no rúmen e isso pode levar à produção de metabolitos que podem ser mais ou menos tóxicos. A capacidade do rúmen em minimizar os efeitos nocivos dessa exposição dependerá de vários fatores, como o tipo de dieta, a saúde do rúmen e a biodisponibilidade de micotoxinas na ração. Por isso, é importante praticar um bom manejo alimentar a fim de minimizar a contaminação da dieta.

Degradação microbiana ruminal de micotoxinas

Evidências de degradação microbiana ruminal de micotoxinas têm sido demonstradas em culturas isoladas de conteúdo ruminal. O interesse nesta área foi estimulado por estudos iniciais que revelaram maior resistência dos ruminantes aos efeitos negativos de algumas micotoxinas. Recentemente, estudiosos revisaram a estabilidade ruminal de diferentes micotoxinas e seu impacto sobre a saúde do rúmen.

Entre 90 e 100% da metabolização da Ocratoxina (OT), Zearalenona (ZEA), toxina T-2, e diacetoxiscirpenol (DAS) foi realizado pelos protozoários, tornando-os a população microbiana ruminal mais importante para a biodegradação de micotoxinas. Níveis consideravelmente menores de metabolização destas micotoxinas foram observados em culturas contendo apenas bactérias ruminais. Tanto a AF como o DON foram metabolizados pelos microrganismos, já a fumonisina B1 é pouco metabolizada no rúmen, não interferindo muito em suas funções.

Há múltiplos fatores que contribuem para os efeitos adversos decorrentes das micotoxinas. A complexidade e os diversos ingredientes utilizados nas dietas podem resultar em combinações de micotoxinas com efeitos sinérgicos. Sendo que o grau de contaminação de alimentos pode ser subestimado por causa de micotoxinas conjugadas. E os sintomas de micotoxicose em um rebanho leiteiro podem não ser específicos, por isso devem ser tomadas medidas para melhorar o manejo alimentar de modo que reduza a contaminação da dieta, bem como otimize a imunidade da vaca e a saúde ruminal.

Mais informações você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de agosto/setembro de 2017 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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