Tecnologia - 23.07.2018

4.0 sim, mas humanos

Em comum, dois jovens tiveram uma entrada “sem querer” para a suinocultura e hoje mantém uma relação horizontal com os funcionários que lhes renderam bons ganhos de produtividade

- Arquivo/OP Rural

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Ela entrou para a suinocultura porque o pai queria vender a propriedade. Ele porque um trágico acidente automobilístico tirou precocemente a vida de seus pais, produtores rurais. Ela, em Salvador das Missões, Rio Grande do Sul. Ele, de Marema, Santa Catarina. Em comum, são jovens, tiveram uma entrada “sem querer” para a suinocultura e hoje mantém uma relação horizontal com os funcionários que lhes renderam bons ganhos de produtividade. Ela, Juliana Spohr, formada em Administração de Empresas, dona de uma unidade produtora de desmamados com três mil matrizes em terras gaúchas. Ele, Rodrigo Bevilaqua, médico veterinário, proprietário de uma UPD de 700 matrizes em solo catarinense.

Os dois jovens produtores têm o perfil do que o sócio-diretor da Agriness, Junior Salvador, admite ser do líder 4.0. Salvador intermediou uma conversa com os jovens produtores, que expuseram seus casos de sucesso na suinocultura com base em um relacionamento mais próximo e menos hierárquico com seus funcionários, obtiveram grandes resultados e estão em busca da excelência. Para eles, a qualificação e valorização do colaborador são imprescindíveis nesse novo momento.

“Sou formada em Administração. O pai iria vender a granja, então tive a certeza eu era a hora de voltar pra casa e assumir esse negócio. Entrei sem saber nada, entrei para aprender com os funcionários como se desempenham todas as funções da granja. Foi um processo longo”, lembra Juliana.

Em 2011 a gente estava com 23 leitões (desmamados/fêmea/ano: hoje a produtividade é de 29,5). A produtividade era baixa, mesmo assim a gente bonificava os trabalhadores. Isso acontecia por comodismo, medo de mudanças; o pai não ia mais na granja, cada um fazia o serviço por conta, não tinham responsáveis, nada era organizado. As pessoas chegavam e decidiam na hora o que iriam fazer. Foi uma situação desafiadora”, relembra.

“Entrei na granja e propus novas metas. As primeiras reuniões o pessoal já se assustava, mas construímos as metas com a participação de todos. Depois, para buscar (alcançar), fica mais fácil. Não é uma meta que a gente impôs, eles ajudaram a construir”, recorda. “Então tornamos a reunião uma rotina da granja, sem abrir mão, para tornar transparente os números, o mapa de produção. A gente viu como eles (colaboradores) ficaram mais felizes em conseguir entender aquilo em primeiro lugar. Eles viram que tinham que ajudar a construir , por etapas, participar ativamente das reuniões. Começamos a evoluir em resultados. Eles começaram trazer coisas que a gente não estava vendo, traçaram ações para resolver esses problemas. Cada resultado era motivação para o dia a dia. Tornamos a liderança mais participativa, cada um começou a assumir mais as suas responsabilidades”, assinala a produtora rural.

Naturalmente

Para Juliana, tornar as coisas mais claras entre os funcionários e mudar a cultura é um desafio que gera retorno. “Em gestão os desafios são diários. Tenho uma granja grande, com 26 funcionários. O que demora para mudar é a cultura. Pegamos a cultura de comodismo, mas ela vem mudando e mudando de forma positiva. As coisas vão se tornando mais simples, os resultados você consegue levantar de forma mais rápida, todos querem buscar a excelência. A liderança acontece de forma natural, longe da figura do ‘eu mando e vocês obedecem’. A gente trabalha com responsabilidade compartilhada. Tenho pessoas especiais, não estou sozinha nessa bronca, temos uma estrutura de bons líderes”, destacou Juliana. “Vou trabalhar para não precisar ir todo dia na granja. Vou saber se sou um bom líder quando sair da granja e os resultados ou continuam bons ou ainda melhoram”, destaca.

“Quando você dá voz aos funcionários, é todo mundo no mesmo nível, em uma relação aberta. Ele fica pronto e comprometido. Você tem que assumir aos funcionários que precisa melhorar em algumas coisas, estabelecer relação de confiança, discutir abertamente sobre mortalidade, ter transparência e confiança. Liderança você conquista. Não preciso me impor. É uma relação mais simples , acho que é a liderança do futuro”, aponta a jovem, que diz não abrir mão de  “pessoas, bons parceiros, lucratividade/produtividade, gestão e investimento contínuo”.

Uma história de tragédia, amor e sucesso

A voz levemente embargada e um nítido sentimento de saudade deram o tom inicial do depoimento de Rodrigo Bevilaqua na Conferência Info360. Sob os olhares de mais de 500 pessoas, dividiu sua história de sucesso na suinocultura e como pretende se tornar um líder da geração 4.0.

Tudo começou com uma tragédia automobilística em 2014. A perda dos pais deixou um vazio na família, mas também na produção de suínos. Precocemente, Rodrigo teve que assumir os negócios da família. “Ainda vivo, o pai falava: ‘teu momento de férias acontece no ano letivo’”, relembrou com carinho. O jovem sempre ajudou na atividade, mas não imaginava que a responsabilidade lhe cairia ao colo após a tragédia. “O intuito era dar continuidade mais pra frente, mas meus pais morreram em um acidente. Sempre fui apaixonado pela criação de suínos. Era eu que cobria as férias dos funcionários”, conta. “Pra mim foi difícil tomar a decisão”, descreve.

Rodrigo buscou apoio. “Sou médico veterinário, mas o que adianta a parte técnica, se na prática não souber direcionar as informações. Ando em Santa Catarina e Rio Grande do Sul vendo granjas produzindo muito. Porque eu não posso?”, expressou.

A boa relação com os funcionários, é, em sua opinião, o que tem melhorado a produtividade. “Implantamos há um ano um modelo. Vou uma vez por semana na granja. Ele (líder) tem total autonomia. Todos são treinados para tomar decisões”, comenta. “Eles não vão ‘parar’ a granja ou deixar de tomar decisões se não me encontrarem”, explica. Resultado, em um ano a produção aumentou em 1,83 leitões/fêmea/ano. “Simplesmente organização e planejamento”, pontua. De acordo com ele, no período a mortalidade caiu de 8% para 3%.

A via de mão dupla é fundamental, opina Rodrigo Bevilaqua. “Os funcionários precisam se sentir incentivados, com mais remuneração. Não abro mão de equipe, relação de confiança, planejamento, bons parceiros e produtividade. O principal de tudo são as pessoas, que fazem e vão sempre fazer a diferença”, arremata o jovem suinocultor.

Mais informações você encontra na edição de Suínos e Peixes de maio/junho de 2018 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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